Fazer sempre uma história nova

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“Se queremos progredir, não devemos repetir a história, mas fazer uma história nova.”

Eu poderia conceituar essa frase de Gandhi como teoria, mas prefiro considerá-la como prática, porque entendi na vida real, como a minha família é um exemplo do que acontece quando você repete a história e do que acontece quando você decide fazer uma nova.

Do chapéu ao papel

Como já contei aqui algumas vezes, meus avós fundaram uma fábrica de chapéus, a Ramenzoni. Chapéu era negócio sério na época, os homens e também um grande percentual de mulheres usavam chapéu, portanto era peça de vestuário, não acessório.

Aí o mundo mudou, as pessoas pararam de usar chapéu e a fábrica estava ali, produzindo algo que ninguém mais iria comprar.

Meu pai e meu tio olharam para aquele cenário embaçado e fizeram uma escolha: não repetir a história. Transformaram a estrutura, aproveitaram o conhecimento de tecidos e máquinas e criaram a BanTan, fábrica de confecções masculinas.

Funcionou muito bem até que o governo fez uma daquelas coisas que só governo brasileiro sabe fazer: isentou impostos no Nordeste. De repente, surgiram grandes fábricas de confecções lá que engoliram o mercado local. A concorrência ficou insustentável.

De novo, a escolha: repetir a história ou fazer uma nova? Meu pai encerrou a confecção e comprou uma fábrica falida que produzia papelão. Introduziu máquinas para produzir papéis finos, para mercearias e padarias. Papel marrom feito de aparas de papelão, vendido para fabricação de caixas de sorvete.

Depois veio uma cisão na família, eu liderei novas modificações, entre elas o desenvolvimento de um papel azul especial para a Fiat Lux. Sim, eu estava seguindo o exemplo familiar de sempre olhar para as tendências que apontavam novas oportunidades acenadas pelo mercado.

E na atualidade, em função da vida agitada e da falta de tempo, pedir comida por delivery virou rotina. Então, investimos em uma máquina para aplicar tratamentos especiais nos papeis que vão virar embalagens especiais para comida quente, fria e gelada. O mercado pediu e a história vai mudar de novo.

Três gerações. Chapéus, confecções, papéis. Cada mudança não foi capricho, mas questão de sobrevivência, porque se falhássemos em fazer uma história nova, isso significaria fechar as portas.

A vida tem fases, não repetições

E não é só nos negócios, a vida inteira é isso.

A moda é outro segmento que demonstra constante repaginação. Calças com bocas largas viraram skinny, que viraram retas, que voltaram largas. As mulheres começaram a usar tênis no trabalho, em eventos sociais, em casamentos.  Se antes era inconcebível, hoje é comum, porque a busca por conforto venceu a rigidez da tradição.

No transporte urbano, bicicletas e motocicletas antes associadas a lazer ou esporte viraram necessidade de locomoção rápida e econômica. Especialmente com o delivery, que transformou a moto em ferramenta de trabalho de milhões de pessoas.

Meu pai viu bondes puxados a cavalo. Depois bondes elétricos, ônibus elétricos com fiação aérea. Depois ônibus a diesel e o futuro aponta para ônibus elétricos autônomos.

No transporte internacional, fomos de navios a aviões, priorizando velocidade sobre custo, e olhem que eu ainda lembro quando viajar de navio era a única opção para viagens longas.

Sobre carros elétricos, confesso meu ceticismo. No Brasil, a energia para carregá-los ainda vem de fontes poluentes, como usinas a diesel. Não faz sentido um carro “limpo” sendo abastecido por energia suja. Eu defendo o carro híbrido a álcool, que recarrega suas próprias baterias. É uma solução mais inteligente para o nosso contexto.

E tem a motocicleta elétrica voadora a jato, que já existe. Já existe! As mudanças estão cada vez mais rápidas e transformadoras.

Por falar em transformação, deixa eu contar uma história que me diverte até hoje.

Meu irmão mais jovem resistia ao celular, teimava que não precisava. Preferia os orelhões, aqueles telefones públicos de rua que hoje são peça de museu. Ele dizia que celular era modismo, que ia passar.

Dois anos depois, meu irmão não só tinha um celular como usava intensamente e não largava mais. O sujeito que jurava que orelhão era suficiente virou dependente de smartphone.

A aceitação da nova tecnologia eventualmente acontece, mesmo entre os mais relutantes. A questão é quanto tempo você leva para aceitar. E quanto tempo você perde resistindo.

Pois é. Tem gente que se opõe à mudança, que quer que tudo continue como está. Que olha para o novo com desconfiança e para o passado com saudade.

Essas pessoas correm o risco de ficar presas no tempo. Como se tivessem parado no ano de 1925 e o mundo continuou girando sem elas.

A modernização contínua de equipamentos e da própria mentalidade é vital para o avanço. Quem recusa evoluir não estagna apenas, retrocede.  Porque enquanto você fica parado, o mundo avança, e a distância entre você e ele só aumenta.

Gandhi sabia que progresso e repetição são incompatíveis. Você não pode progredir fazendo exatamente o que sempre fez, não pode melhorar repetindo o que já existe, não pode crescer olhando para trás.

Minha família entendeu isso há três gerações. Meu irmão entendeu isso em dois anos. Alguns nunca entendem.

A vida e o desenvolvimento são um processo contínuo de mudança e adaptação. Cada fase da vida é uma nova história que exige evolução mental e física. Você não pode chegar aos 40 com a mentalidade dos 20. Não pode chegar aos 60 com os hábitos dos 30. Não pode chegar aos 88, como eu, achando que o mundo precisa se adaptar a você.

É você quem precisa se adaptar ao mundo. E depois adaptar de novo e sempre.

Porque repetir a história é confortável, seguro, mas é exatamente esse conforto que mata empresas, carreiras e relacionamentos.

O próximo capítulo precisa ser diferente.

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