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Com uma certa frequência as pessoas costumam manifestar curiosidade de onde vem a minha calma diante das coisas, de onde vem essa tranquilidade de não me incomodar com críticas, com perguntas, com o que não sei.
Quando me perguntam diretamente, a minha resposta sempre desarma quem pergunta: eu não sei! E essa resposta, aliás, é exatamente o ponto de partida de tudo o que vou contar aqui.
Tive um amigo de infância chamado Pedro Suter. E ele era mais inteligente que eu. E sabe qual foi a maior lição que ele me deu? Ele me ensinou, na prática, a aceitar a superioridade alheia sem me incomodar.
Enquanto muita gente se sente ameaçada ao enco
ntrar alguém que sabe mais, eu aprendi cedo a pensar: “Que bom. Agora tenho alguém com quem aprender.“
Essa é a base de tudo que eu chamo de maturidade. O auge dela não é saber muito, mas ter consciência de que você não sabe tudo e aceitar isso sem incômodo nenhum. Não se perturbar com perguntas, com novidades, com alguém que sabe mais. Porque maturidade não tem idade, mas representa a nossa forma de pensar e sentir.
Parte dessa maturidade precoce eu devo a um hábito simples: ler muito e todos os dias desde moleque. Jornais, revistas, livros e na atualidade leio também muitos conteúdos na internet.
Agora vamos comparar isso com a realidade de hoje. As pessoas se informam por recortes de redes sociais, um título aqui, uma frase ali, um vídeo de trinta segundos e já acham que sabem tudo sobre aquele tema. A informação virou migalha e migalha não alimenta pensamento nenhum, só sustenta a ilusão de que se sabe.
A maturidade intelectual nasce do oposto. De enfrentar o texto inteiro, o contexto completo e de ter a tranquilidade de dizer: “Isso eu não sei.”
Ninguém precisa ser melhor em tudo
Minha vida foi diversificada de propósito. Velejei. Pratiquei atletismo. Construí negócios. Negociei com sindicatos. Cada atividade me deu um tipo de conhecimento diferente, e o resultado é que hoje carrego um saber abrangente.
Mas abrangente não é ser expert em tudo. Longe disso. Eu não me importo em não ser o melhor. Aceito minhas limitações com a mesma naturalidade com que reconheço minhas capacidades.
Aos 87 anos, continuo igual. Se aparece um assunto que não conheço e me interessa, eu pesquiso. Se não me interessa, deixo passar. Sem culpa, sem desconforto, sem fingir que entendi.
E se você leu minha postagem sobre os três caminhos para o fracasso, vai reconhecer: perguntar o que ignora é o antídoto e eu só acrescentaria que precisa existir tranquilidade para fazer essa pergunta. (E tranquilidade é fruto de maturidade.)
Agora vamos para o teste prático, porque essa de não se incomodar é fácil de falar e difícil de comprovar.
Tem uma amiga minha que ouviu um comentário sobre o peso dela e ficou irritada profundamente. Aquilo a marejou por dias.
Comigo isso não acontece. Quando alguém comenta minha aparência, eu respondo com bom humor: “Estou bonitinho, né?” E sigo a vida.
Confesso que nem sempre foi assim. Na juventude, eu podia reagir de forma mais agressiva. Mas com o tempo entendi que comentário alheio só tem o peso que eu dou a ele. Evoluí e continuo evoluindo. (Ainda bem!)
Então deixa eu entregar a técnica mais poderosa que conheço para lidar com agressão. Diante de uma ofensa, em vez de revidar, eu pergunto: “Por que você está falando assim comigo?” Ou: “Por que você está brabo(a)?”
Simples. Desarmante. A pergunta tira o foco da ofensa e aponta para o estado de quem ofende. E aí acontecem duas coisas: ou a pessoa reflete e recua, ou o problema verdadeiro aparece. Porque quase nunca tem a ver com você. É o dia dele, a vida dele, a pressão que ele carrega.
Eu desarmei meus irmãos na infância com essa pergunta. Desarmei colegas em reuniões profissionais e posso garantir que funciona até com os mais estressados.
Tem uma história que ilustra bem isso que estou falando para vocês: um dia, um colega me ofendeu publicamente em uma reunião sindical. Todos esperavam que eu revidasse na hora e eu não fiz o esperado. Apenas olhei para ele e disse: “Se não concorda com o meu posicionamento, senta na minha cadeira, assume o meu papel e resolve o problema.”
Meses depois, ele me procurou, pediu desculpas e daquele dia em diante virou um companheiro respeitoso.
Eu podia ter ganho a briga naquele momento, mas teria perdido algo muito maior depois. A paz de quem não deixa o conflito escalonar e o respeito de quem reconhece serenidade quando vê.
Chamo essa postura de consciência em paz e creio ser um princípio fundamental: a paz, para mim, sempre está em primeiro lugar.
Não é passividade, mas sim, estratégia. Quem reage a toda provocação gasta energia em batalhas que não valem nada. Quem cultiva a paz, escolhe as batalhas que realmente importam e chega nelas inteiro.
Essa postura me rendeu o que dinheiro nenhum compra: ser bem conceituado e respeitado, pessoal e profissionalmente. E o respeito construído com paz dura. Já o respeito construído no medo dura até a primeira adversidade do outro.
E se tem uma frase que me incomoda profundamente de ouvir é: “Ah, eu não tenho mais idade para isso, Dante.”
Como assim? Não tem mais idade para aprender? Para se movimentar? Para se arrumar? Para viver?
Aos 87 anos, eu não me sinto uma pessoa de idade no sentido pejorativo. Pratico ginástica, cuido da alimentação e me preparo fisicamente para envelhecer bem. Não porque nego a idade, mas porque quero envelhecer bem. (Afinal o plano é chegar nos 120 anos!)
Tem gente que se entrega ao tempo decorrido como desculpa e usa a idade como atestado de incapacidade. Eu prefiro usar os meus 87 como prova de que dá. Dá para continuar ativo, curioso, envolvido, interessado, para acordar com vontade de viver intensamente.
A escolha que define tudo
Sejamos honestos: ninguém nasce maduro. Eu às vezes digo que nasci maduro de brincadeira, mas a verdade é que nasci com as ferramentas certas nas mãos cedo demais: um amigo que me ensinou a não me incomodar, o hábito de ler, uma vida diversificada que me mostrou que sempre existe alguém melhor em alguma coisa.
Maturidade é um processo contínuo de desenvolvimento do autocontrole e da paz interior. É você escolher o que te afeta e o que não te afeta, com base nos seus valores e nos seus interesses. É não ser refém da opinião alheia. É ouvir a crítica e decidir, com calma, se ela merece espaço ou não.
Quem tem maturidade não é quem nunca se abala. É quem sabe, em cada momento, o que vale abalar e o que não vale.
A crítica, o comentário, a ofensa: eles chegam até você, mas quem decide o peso é somente você. E quem domina essa escolha descobre algo extraordinário: a maior parte do que nos perturbou nem merecia o espaço que demos.
Maturidade não é a idade que você tem. É a paz que você escolhe ter. E essa escolha está disponível hoje, amanhã e em qualquer ano do calendário.