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“Necessitamos sempre de ambicionar alguma coisa que, alcançada, não nos torne sem ambição.”
Ao ler essa frase, você sente um incômodo bom, tipo uma verdade que te cutuca porque você sabe que é verdade, mas, às vezes, finge que não sabe disso?
Eu descobri quem disse isso há anos. Foi um poeta, Carlos Drummond de Andrade. E sabe o mais interessante? Ele não parou de escrever depois da primeira obra premiada. Continuou. Buscou se superar. Porque entendia que a vida não é um destino definido, mas uma sucessão de transformações contínuas.
Aos 87 anos, com mais de 60 anos dedicados à indústria, posso afirmar com segurança: chegou o tempo de renovar nossas ambições. E esse tempo é agora.
Quando tudo começou
Em 1972, aos 34 anos, inaugurei a nova fábrica da Papirus em Limeira. Tinha uma máquina que produzia 45 toneladas por dia. Lembro como se fosse agora: aquele entusiasmo, aquela certeza de que aquilo ia revolucionar tudo.
E revolucionou. Mas nem sempre do jeito que imaginávamos ou gostaríamos. Porque a vida não é um plano que você executa e pronto. É mais como um rio, está sempre mudando, encontrando novos cursos e exigindo que você se adapte ou seja carregado pela corrente.
Cinquenta e três anos depois, a Papirus produz 350 toneladas por dia. Se alguém me tivesse dito em 1972 que chegaríamos a esse número, eu teria duvidado; mas chegamos. E sabe o que é mais interessante? Isso não é o fim da história. É só o começo de um novo capítulo.
Aqui está o paradoxo que ninguém te avisa quando você está começando: com conhecimento e garra você consegue alcançar seus objetivos, só que, quando alcança, o mundo muda.
E de repente produzimos as toneladas planejadas, mas podemos não conseguir vender toda a produção. Por quê? Porque tem épocas que população brasileira não consome tudo aquilo que a gente produz. Porque as guerras globais estão afetando as exportações. Porque tem concorrência desleal vindo da China, pagando impostos menores que nós, querendo abocanhar o nosso mercado.
Problemas. Sempre há problemas no setor industrial, mas eles costumam ser o combustível para renovarmos a ambição, sairmos em campo para pesquisar, estudar o mercado, conversar com os clientes. “Como reinventar?”
Resposta: estamos inaugurando uma nova fábrica de aplicação dentro da nossa estrutura existente.
Essa linha nova produzirá papéis impermeáveis para embalagens de delivery. Copos. Recipientes para alimentos quentes e frios. Embalagens para sorvete. Optamos por diversificar, transformar. Mais do que isso: renovar a ambição.
A ambição pessoal que não envelhece
Mas não é só a Papirus que continua ambicionando. Sou eu também.
Minha visão de futuro desde os 34 anos até agora permaneceu inabalável. Sempre acreditei que daria para mais, sempre busquei coisas novas para me ajudar a superar limites.
Falam: “Dante, mas você é velho demais para andar de moto.” Respondo: “Tenho feito isso há 80 anos. Acho que tenho experiência.”
Falam: “Você não deveria estar trabalhando nessa idade.” Respondo: “Ficar em casa sem fazer nada é uma forma de morte em vida. Um homem precisa se levantar, tirar o pijama e sair para a rua.”
E tenho uma ambição pessoal que pode parecer loucura, mas é real: quero viver até os 120 anos. Não porque acho que vou conseguir, necessariamente. Mas porque vejo exemplos ao redor e também porque amo a vida demais para negociar menos. Porque enquanto houver fôlego e ideias, por que não?
Uma coisa que aprendi é que você não consegue ambicionar bem se não souber o que está acontecendo no mundo. Por isso leio jornais, revistas, livros. Mantenho-me atualizado. E sim, estou me entendendo melhor com a inteligência artificial. Inicialmente era cético, confesso, e pensava: “Isso é só modinha, não substitui o trabalho real.” Mas descobri que estava errado, em parte.
A IA pode atuar como um auxiliar extraordinário. Ela me dá dados, comparações, perspectivas que eu levaria semanas para montar, portanto ela ajuda a acelerar decisões. Mas, e aqui está o ponto principal, ela não substitui a inteligência humana, o investimento real, a reinvenção que exige suor, risco e coragem.
E é muito bacana, sabe? Estar sempre atento, pensando em coisas novas e indagando: “E se a gente fizesse diferente? E se a gente tentasse isso? E se a gente criasse aquilo?”
Porque é nessas perguntas que a vida acontece e não no lugar-comum de “já fizemos assim, então vamos continuar assim.” Isso é morte lenta, disfarçada de segurança.
A ambição é o contrário disso. Ambição é risco, desconforto, é aquele incômodo que não te deixa dormir porque você sabe que há algo melhor lá na frente, algo que você ainda não alcançou.
E voltamos àquele verso do poeta: não podemos evoluir sem ambição. Porque no dia em que acreditamos que chegamos, que conquistamos tudo que precisávamos conquistar, começamos a morrer.
Nesta semana, com a Páscoa se aproximando, quero deixar uma reflexão que vai além de datas e celebrações. Para mim, a Páscoa, em sua essência mais profunda, é sobre renovação. É sobre transformação. É sobre aquele ciclo que nunca termina, morte e renascimento, fechamento e abertura, fim e recomeço.
E é exatamente isso que é renovar a ambição: reconhecer que aquilo que você conquistou é apenas um ato de uma peça muito mais longa, que cada projeto concluído é um capítulo que abre espaço para a nova história. E cada ato pode ser melhor que o anterior. Cada cena pode ser mais rica, mais profunda, mais significativa.
Então fica o convite, especialmente nesta Páscoa: qual é a ambição que você precisa renovar?
Não falo de ganhar mais dinheiro, necessariamente, mas sim de aprender algo novo, se reinventar profissionalmente, abraçar um desafio que assusta um pouco. De não aceitar que aquilo que você conquistou é o final da história.
Porque é essa ambição contínua, essa busca de renovação permanente, que nos faz eternamente vivos, jovens e humanos. E o tempo de renovar nossas ambições é sempre agora.
Feliz Páscoa a todos.