A pior forma de preguiça

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Existe um tipo de preguiça que não aparece no espelho. Não é aquela de não querer sair do sofá, de adiar a academia ou de deixar a louça para depois. Essa todo mundo reconhece e, de alguma forma, até justifica. A preguiça que me preocupa é outra. É a preguiça de pensar. E ela está por toda parte.

Você já percebeu como muitas pessoas concordam com tudo? Alguém fala qualquer coisa e, antes de terminar a frase, já tem gente acenando com a cabeça.

Não é porque a ideia era boa. É porque concordar é mais fácil do que pensar. Questionar dá trabalho, perguntar pode parecer ignorância, e discordar, então, parece grosseria.

O resultado? Reuniões onde todo mundo concorda e nada evolui. Conversas onde ninguém aprende nada. Decisões tomadas no automático que depois custam caro.

Foi Freud quem disse, com aquela precisão cirúrgica que ele tinha: “Se duas pessoas estão sempre de acordo em tudo, só uma está pensando.” Pois é, quanto mais vivo, mais entendo a verdade contida nesse pensamento.

Perguntar não é fraqueza

Tem uma cena que se repete em reuniões técnicas, em conversas de trabalho, até em jantares de família: alguém explica algo, termina, e o silêncio constrangedor toma conta. Ninguém pergunta, não porque entenderam tudo. Mas porque têm vergonha de parecer que não sabem. Ou porque simplesmente não estavam prestando atenção.

Aprendi que perguntar é um dos gestos mais inteligentes que existem. Um bom administrador, por exemplo, não pode apenas gerenciar números numa sala fechada. Precisa entender como o produto é vendido, como é produzido, o que acontece no chão de fábrica. E isso só se descobre de uma forma: perguntando.

Gente que afirma saber tudo, na minha experiência, geralmente sabe errado. E pior: sabe errado com muita convicção.

Para testar o que estou falando, preste atenção na próxima conversa que tiver. Conte quantas perguntas aparecem. Se forem poucas ou nenhuma, é sinal de que o diálogo está sendo unilateral. Alguém fala, o outro finge que ouve, responde qualquer coisa para encerrar logo o assunto, e seguem em frente.

Ninguém aprendeu nada. Ninguém saiu diferente de como entrou.

Um diálogo genuíno tem perguntas. Tem aquele momento em que você para e diz: “Espera, não entendi essa parte. Pode explicar de novo?” Ou: “Isso que você falou me fez pensar numa coisa. O que você acha de…”

Esse tipo de conversa é rara. E justamente por isso, quando acontece, traz um resultado muito positivo.

Aprender não tem idade nem hierarquia

Outra coisa que a preguiça de pensar faz: cria uma hierarquia falsa do conhecimento. O mais velho acha que não tem nada a aprender com o mais jovem. O chefe acha que não precisa ouvir o subordinado. O especialista acha que o aprendiz não tem nada a acrescentar.

Pura bobagem. Já aprendi muita coisa com pessoas mais jovens que eu. Raciocínios diferentes, perspectivas que eu nunca teria sozinho, perguntas que me fizeram pensar de um jeito novo. O aprendizado é contínuo e vai nos dois sentidos.

Quem para de aprender, para de evoluir. E quem para de evoluir começa, lentamente, a regredir.

E tem um detalhe que poucos percebem: assumir compromissos intelectuais obriga a pessoa a pensar. Quando me comprometo a discutir um tema para uma publicação, preciso organizar as ideias, questionar o que sei, pesquisar o que não sei. Não posso chegar com respostas vagas ou concordâncias automáticas. Esse exercício é valioso. E é justamente o que muitas pessoas evitam, porque dá trabalho.

Do meu lado, prefiro o WhatsApp às redes sociais exatamente por isso. Lá acontecem trocas mais diretas, mais reais, mais produtivas. Menos performance, mais conversa.

No fundo, é simples: quem não pensa não chega a lugar nenhum.

Não importa o diploma, o cargo, a experiência acumulada. Se a curiosidade apagou, se as perguntas secaram, se o questionamento virou ameaça em vez de ferramenta, o progresso para.

O pensamento é o que nos faz evoluir como seres humanos. É ele que nos permite distinguir informações credíveis de mentiras, boas decisões de impulsos, caminhos que valem a pena de becos sem saída.

E cultivar esse pensamento não termina quando a faculdade acaba, muito menos nos dias atuais. Começa aí.

Então fica aqui a dica dessa semana: da próxima vez que alguém falar algo, resista ao impulso de concordar no automático. Pense. Questione. Pergunte.

Não porque discordar seja uma virtude em si, mas porque pensar é. E a diferença entre uma vida que evolui e uma que fica girando em círculos muitas vezes está nesse momento simples: o momento em que você decide não ser preguiçoso com a sua mente.

Afinal, o sofá até perdoa. A vida, nem sempre.

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