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Neste início de ano uma amiga me perguntou como estava me sentindo aos 8.7 anos… eu respondi de pronto: “8.7? Como assim? Eu ainda estou no 5.0!“
Ela riu. Explicou que estava falando dos meus 87 anos como se fosse uma versão de software. Eu ri também. Mas insisti na questão: “não me sinto com a idade que tenho, estou no 5.0 – no máximo! Versão intermediária, com alguns bugs a serem corrigidos (a joelheira, a fisioterapia e o pilates são alguns deles), mas ainda rodando bem.”
E se tem algo que aprendi nesses 87 anos de vida é que cada ano novo não é apenas uma virada de calendário. É uma oportunidade de reinvenção. E 2026, meus amigos, vai exigir mais reinvenção do que nunca.
Vocês que me acompanham sabem que não sou de fazer previsões precipitadas. Já vivi tempo demais para saber que o mundo sempre teve seus desafios, suas crises, seus momentos de incerteza e sempre continuou girando. Mas 2026 pede um olhar mais atento. Temos Copa do Mundo pela frente, eleições importantes, um cenário internacional que não para de se movimentar. A América do Sul está passando por transformações, o Brasil está ganhando destaque mundial em cinema, música e artes, mas nossa política interna continua sendo um desafio.
Meu mantra para este ano? Mais cautela.
Cautela não é medo. Cautela é sabedoria. É perguntar mais antes de decidir. Olhar duas vezes antes de dar o passo. Buscar entender que o mundo mudou e precisamos nos adaptar.
Reinventar ou estagnar
Se tem algo que me mantém vivo, literalmente, é a capacidade de me reinventar. Reinventei a fábrica de chapéus em fábrica de papel. Reinventei o empresário em criador de gado. Reinventei o pensador solitário em blogueiro. E agora, aos 87, continuo me reinventando todos os dias.
Sim! Precisamos, mais do que nunca, reinventar o modo de viver.
Os produtos precisam ser reinventados. As empresas estão enfrentando concorrência de produtos chineses com baixa taxação, perdendo dias úteis de produção. A solução? Reinventar a forma de produzir, de competir, de agregar valor.
As relações familiares precisam ser reinventadas. Vejo menos casamentos, menos nascimentos, famílias menores. O envelhecimento populacional é uma realidade. Mas também vejo pessoas mais velhas sendo valorizadas no mercado de trabalho, compensando a falta de qualificação das gerações mais jovens.
A forma de educar precisa ser reinventada. As crianças estão crescendo rápido demais, diminuindo o tempo de criancice. Falta disciplina, faltam valores sólidos como a honestidade. E sem honestidade, não há sociedade que se sustente.
A Copa, o futebol e a distração necessária
Confesso que não estou muito otimista com nossa seleção este ano. A gestão atual, o técnico, o desempenho em comparação com as seleções europeias… tudo me deixa cético. Mas sabe de uma coisa? A Copa do Mundo é mais do que futebol. É uma distração saudável da política. É uma oportunidade de união nacional. É aquele momento em que todos vestem a mesma camisa, literalmente.
Lembro do futebol dos tempos de Pelé. Havia disciplina, espírito de equipe, comprometimento. Hoje vejo mais individualismo, menos entrega coletiva. Mas quem sabe 2026 nos surpreenda? Quem sabe nossos jogadores redescubram o que significa vestir a amarelinha?
A honestidade como fundação
Se eu pudesse escolher um único valor para guiar 2026, seria a honestidade.
A verdade e a honestidade são os valores mais importantes. A mentira é a raiz de toda desonestidade. E vivemos tempos onde a mentira se tornou comum, quase aceitável. Precisamos voltar a valorizar a palavra dada. O compromisso assumido. A promessa cumprida.
Na política, precisamos questionar mais. Por que alguém fica no poder por mais de dois mandatos? O que realmente muda com tantas promessas não cumpridas?
Nos negócios, precisamos perguntar mais antes de investir. Entender melhor antes de confiar. Ser mais vigilantes contra golpes e desonestidades.
Nas relações pessoais, precisamos falar a verdade, mesmo quando dói. Porque a mentira, por mais confortável que pareça no momento, sempre cobra seu preço depois.
Os desafios das novas gerações
Olho para meus netos e desejo que sigam o exemplo de trabalho duro, de honestidade, de persistência. Mas reconheço que o mundo deles é diferente do meu.
Vejo jovens crescendo rápido demais. Gravidezes precoces. Suicídios entre jovens e adultos. Uma liberalidade excessiva que, ao invés de libertar, acaba aprisionando em escolhas mal informadas.
Vejo também a falta de interesse de algumas gerações mais jovens em trabalhar, em se qualificar. E por isso, curiosamente, nós, os mais velhos, estamos sendo mais valorizados no mercado. Experiência voltou a ter valor.
Os avanços em saúde nos permitem uma melhor qualidade de vida na velhice. Uso joelheira, faço fisioterapia, recuso mais cirurgias porque aprendi a ouvir meu corpo. Estou no 5.0, lembram? Ainda com muito processamento pela frente.
Insistir nas perguntas certas
Uma das lições mais importantes que posso deixar para este Ano Novo é: aprenda a perguntar. Por exemplo: antes de investir seu dinheiro, pergunte. Antes de confiar em uma promessa política, pergunte. Antes de seguir um conselho, pergunte. Seja mais questionador, mais informado, mais vigilante.
O mundo está cheio de informações, mas nem todas são verdadeiras. Está inundado de oportunidades, mas nem todas são legítimas. Tem muitas vozes, mas nem todas merecem ser ouvidas. Portanto, desenvolva seu senso crítico. Confie, mas verifique. Acredite, mas questione.
O Brasil que caminha ao nosso lado
Apesar de todas as preocupações, vejo coisas boas acontecendo. Nosso cinema está ganhando prêmios internacionais. Nossa música está conquistando o mundo. Nossas artes estão sendo reconhecidas. Isso é bom para o Brasil como nação, para nossa imagem, para nosso orgulho. Temos problemas? Sim, muitos. Mas são solúveis. Sempre foram. O Brasil sempre encontrou um jeito de se virar, de se adaptar, de continuar.
E é isso que precisamos fazer em 2026: encontrar nosso jeito de nos virar, de nos adaptar, de continuar crescendo. Então aqui vão meus desejos para vocês neste 2026:
Que encontrem alegrias simples em meio aos desafios complexos. Que a Copa do Mundo nos una, mesmo que discordemos sobre o técnico. Que a política nos inspire, mesmo quando decepciona.
Que cuidem da família, respeitando os espaços individuais. Que eduquem com disciplina, mas também com amor. Que construam pontes entre gerações, valorizando a experiência dos mais velhos e a energia dos mais jovens.
Que este ano seja de reinvenção. Em como trabalham, em como se relacionam, em como vivem. Porque o mundo mudou, está mudando, e continuará mudando em velocidade cada vez maior.
Que 2026 seja um ano de versões atualizadas de todos nós.