Vacas gordas precedem vacas magras

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Meu carro tem mais de 10 anos, funciona perfeitamente bem, não tenho a menor vontade de trocar e é impressionante como isso choca as pessoas. Você vê aquele olhar de “mas você pode ter um carro novo quando quiser“. E respondo sempre a mesma coisa: “por quê? Se este aqui me leva de um lado para o outro sem problemas, por que eu gastaria dinheiro com algo que não preciso?

Essa é a pergunta equivocada que a maioria faz. A pergunta mais certeira é: “O que estou sacrificando no futuro para viver melhor no presente?” Porque é aí que está o segredo. A verdadeira medida de quem você é não aparece quando tudo está bem, mas quando as coisas ficam difíceis. Quando o céu, que era azul, fica nublado e você descobre se preparou um guarda-chuva ou se vai ter que dormir na chuva.

Os que gastam e os que acumulam

Nos últimos tempos, tivemos uma década que podemos considerar como de “vacas gordas”, a indústria brasileira operava em cenário instável, mas o céu tinha mais azul do que cinza. Máquinas rodando, vendas em ciclo crescente para os “batalhadores”.

Nesse período, vi exatamente duas reações diferentes. Uns compraram carro novo, casa maior, viagens extravagantes. Expandiam o padrão de vida como se aquilo fosse durar para sempre, como se o dinheiro nunca fosse escassear. E quando a chuva chegou, porque sempre chega, eles não tinham um guarda-chuva. Tinham dívidas.

Outros se preocuparam com as nuvens no horizonte mesmo quando o céu era azul. Construíram reservas. Investiram em ativos que podiam ser vendidos sem prejuízo. Dormiam tranquilos. Adivinhem quem está em pé agora? Quem conseguiu manter a fábrica funcionando nos tempos difíceis? Quem tem margem para manobra quando as coisas apertaram?

A parábola que ninguém lembra

Tem uma história antiga, bíblica, sobre sete vacas gordas seguidas por sete vacas magras. Sete anos de fartura, sete anos de escassez. A maioria das pessoas ouve essa história e pensa: “Legal, é uma história religiosa.” E segue com a vida, mas é bem mais prático que isso. É economia. É ciclo. É aritmética.

Durante os dez anos de “vacas gordas”, a Papirus tinha um cenário favorável para acumular caixa. Era hora de poupança, não de gasto. Era hora de construir o colchão para os tempos difíceis.

Agora estamos nas “vacas magras”. E aqui é onde a coisa fica séria. As máquinas precisam parar alguns dias a mais para economizar energia, matéria-prima, água, combustível para manter a empresa viva e as pessoas empregadas. Quem não guardou reservas pode enfrentar tempos bem conturbados.  

Bom senso financeiro

Conheço gente que ganha muito bem, construiu um patrimônio e está passando por sérios apertos financeiros. Não porque o mercado desabou, mas porque nunca aprendeu a viver com menos do que podia gastar.

Bom senso é simples, mas não é fácil. É você examinar seu dinheiro, saber para onde está indo, questionar cada gasto. Não comprar apenas porque pode, mas porque precisa.

Bom senso também é investir em coisas que valem: imóvel, que você pode vender sem perder; educação, que ninguém tira de você; saúde, que você só aprecia quando a perde.

É você ter reserva para que quando as coisas fiquem apertadas, você não entre em pânico e possa dormir tranquilo.

Tem um relógio que uma vez me marcou para toda a vida. Meu tio o mostrou, apontando para o pulso, quando fizemos um grande empréstimo para a expansão da fábrica. Ele disse: “Você está vendo esse relógio? Não é mais meu. É do banco.” Entendi na hora. Enquanto há dívida, você não é livre, é refém. E refém dorme mal.

Saúde é capital, não privilégio

Agora, se você acha que tudo isso é só sobre dinheiro, deixa eu corrigir. Saúde é a outra moeda, que precisamos investir enquanto ela se faz presente.

Faço exames regulares, mesmo quando me sinto bem e não há sintomas. Porque doença não aparece do nada e quando dá o ar da graça, custa caro e diminui a qualidade de vida. Sempre cuidei bem da minha saúde para poder cuidar da minha família no futuro, poder continuar trabalhando e poder estar presente quando me precisarem. Isso é prudência. É se preparar para o cenário nublado em dias de céu azul.  

O governo e a indústria

Agora vem a parte que me irrita e preciso falar sobre ela. O governo brasileiro impõe 30, 40% de imposto sobre a produção nacional de papel, enquanto isso, produtos da China entram pagando 16% de imposto.

Isso é sem sentido, prejudicial e denota que quem faz a política não entende, ou não quer entender, que a indústria é o que move um país.

Quando você desestimula a produção local enquanto facilita a importação, você põe um ponto final em vários negócios que movimentam a economia. Quando nossos produtos não conseguem competir no preço, as fábricas param, trabalhadores vão para casa e aí o governo investe em assistencialismo para compensar o desemprego que ele mesmo criou.

E não me entenda errado: há pessoas que realmente precisam de ajuda. Mas, quando assistencialismo vira regra, quando a pessoa acha que é mais fácil depender do governo do que trabalhar, você cria uma população que não constrói nada.

Todos os outros países fazem diferente, protegem suas indústrias, taxam produto estrangeiro e defendem seu trabalhador. Por que o Brasil não faz?

O jogo invisível das guerras

E tem mais uma coisa que precisamos pensar a respeito, muitas guerras modernas não são ideológicas. São sobre terra, minério, lítio para bateria, cobre para eletrônica, ouro para… bem, para tudo.

Às vezes, guerra é até provocada para “mexer a economia”. Para destruir infraestrutura antiga e reconstituir nova. Porque na reconstrução, há movimento de dinheiro, gastos e a economia fica em movimento.

O Brasil tem vastas reservas. Terras virgens, recursos que o mundo inteiro quer. E enquanto a gente discute política de salão, há potências estrangeiras com os olhos fixos nesses recursos.

Isso reforça tudo que estou dizendo: você não pode depender de ninguém. Nem do governo, nem de empresa que pode fechar amanhã. Você precisa ser autossuficiente, ter suas reservas e estar preparado.

E é por tudo isso que chegamos a um ponto fundamental: qualquer um é bom quando tudo está bem. Qualquer um consegue estar alegre, generoso, paciente, quando o dinheiro está sobrando. Mas e quando as “vacas magras” chegam? Quando há incerteza? Quando você precisa tomar decisão difícil?

Aí você descobre quem realmente é. Se preparou o terreno ou dormiu na zona de conforto, se acumulou reservas ou gastou tudo, se investiu em saúde enquanto podia ou descuidou. Se pensou no futuro ou só viveu o presente.

Então fica aqui uma dica de quem já passou por muitos ciclos: curta o céu azul, sim. Aproveite o bom momento, sim. Mas sempre comportando-se como se houvesse nuvem no horizonte.

Não compre porque pode. Compre porque precisa. Invista em coisas que valem: saúde, educação, ativos imóveis. Acumule capital quando as “vacas estão gordas”. Não para ficar rico, mas para ter margem quando elas ficarem magras.

Cuide da saúde como se fosse dinheiro. Porque é.

Porque a verdadeira medida de quem você é aparece quando a chuva chega. E se você preparou um guarda-chuva, você não vai só sobreviver.  Vai prosperar.

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