Velhos amigos, confiança total

Tempo de leitura: 6 minutos

Gosto de pensar que amigos são pessoas afins que a vida deu um jeitinho que se aproximassem da gente em determinado momento de nossa história.

A disponibilidade para o convívio e a dedicação investida na relação sinalizam que existe conexão, um complementa o outro a seu modo e então as pessoas seguem caminhando juntas, porque isso é bom e faz bem para elas.

Assim aconteceu desde o meu primeiro encontro com Henrique Manograsso Sobrinho.

Nós nos conhecemos na cidade de São Paulo, na sala de aula do Colégio Dante Alighieri, na 5a série do curso de admissão ao ginasial, quando ele chegou transferido do Colégio Rio Branco. Eu tinha onze anos e ele doze, pois nasceu quatro meses antes de mim.

(Antigamente, quando o aluno concluía a 4ª série do primário, ele tinha a opção de passar direto para o ensino ginasial, desde que tivesse a idade recomendada e fosse aprovado no exame de admissão, uma espécie de mini vestibular. Caso contrário, teria que cursar a 5ª série do primário.)

Desde o início curtíamos estudar juntos, fazer as pesquisas escolares, havia sinergia entre a gente, então fomos nos conhecendo mais e mais, participamos das mesmas experiências, frequentamos a casa um do outro, adotamos as famílias como se fossem extensão das nossas.

Eu gostava muito do seu Antoninho e da dona Eliza, os pais do Henrique, e também da sua irmã Renata, uma moça muito bonita com quem tive um breve namorico. (Infelizmente ela nos deixou há poucos meses…)

Quando concluímos o curso científico, em 1957, após 8 anos estudando juntos, eu viajei para os Estados Unidos para dar sequência aos meus estudos e ele foi cursar Engenharia Agronômica, na cidade de Piracicaba, no interior de São Paulo.

Nesse período, quando eu vinha ao Brasil nas minhas férias, sempre dava um jeito de ir visitá-lo e fazia isso pilotando um avião modelo Paulistinha, que eu alugava na Escola de Pilotagem, no Aeroclube de São Paulo, no Campo de Marte, porque além de adorar voar, chegava mais rápido e tinha mais tempo para curtir o meu amigo.

Compartilhamos cenas de muitas histórias, opiniões, aprendizados, segredos, risadas, memórias, silêncios, dores, sempre procurando respeitar as nossas diferenças.

Em 1961, quando retornei ao Brasil, fui trabalhar na Ramenzoni Chapéus e ele, devido ao falecimento de seu pai, assumiu a direção da indústria de bebidas da família, a Bellard.

Pouco tempo depois, estava apaixonado pela Marieta, que conhecemos juntos em uma festa em Piracicaba. O namoro deu certo e ele me convidou para ser seu padrinho de casamento, acompanhado pela minha estimada irmã Lucia. Dessa união, nasceram duas lindas meninas: Alessandra e Andrea.

Os tempos seguintes, de 1962 até 1985 foram anos de muito trabalho, de ambos os lados e nós passamos um longo período cada um dedicado aos seus afazeres profissionais, sem, entretanto, a distância representar um impedimento que a nossa amizade se manifestasse em nossos pensamentos.

Um belo dia, eu e meus irmãos estávamos organizando a ida para uma pescaria no Pantanal e meu irmão Virgílio, responsável pela organização das bebidas e comidas, me contou que passara por Guararema para comprar o tonel de pinga, havia encontrado o Rico, conversado com ele e que ele não estava muito legal.  

Disse ainda que quando o encontrou, ele estava dirigindo um trator e contara que os negócios não estavam bem e por isso precisava fazer várias funções ao mesmo tempo.

Eu pensei “poxa, mas ele é um engenheiro agrônomo tão competente… vou até lá ver isso de perto.”

Quando nos encontramos, percebi que ele estava em maus lençóis, a empresa da família, tão bem construída, forte, passava por dificuldades financeiras e me coloquei à disposição para ajudar no que estivesse ao meu alcance. Ele agradeceu muito, mas disse que eu podia ficar tranquilo que estava tudo sendo resolvido.

Pouco tempo depois de nosso reencontro, eu soube que a Bellard seria fechada, voltei a procurá-lo e disse:  “Amigo, você vai fechar a fábrica… não gostaria de vir trabalhar comigo? Eu tenho duas fazendas da Papirus e estou precisando de um administrador, você topa?”

“Topo!” E foi assim que o meu amigo Henrique, por cerca de 25 anos, me ajudou a administrar as minhas fazendas até o ano de 2012, quando vendi a Fazenda Alvorada e encerrei uma história de muitas realizações com a criação de gado Guzerá.

Durante todo esse período, a nossa amizade ficou cada vez mais fortalecida e em 1995, Rico me ajudou na escolha da minha casa de Guararema, pois já morava na cidade há alguns anos.

Com a compra desse imóvel, nos tornamos vizinhos de finais de semana, férias e nos divertimos a valer, protagonizando inúmeras confraternizações que trouxeram ainda mais alegria para nossas vidas.

Mas, como nem tudo na vida são flores, no desfecho da nossa relação profissional, discordamos de alguns pontos de vista e nos afastamos por um tempo. Nesse mesmo período, também houve a perda de Marieta, o que fez com que ele sentisse vontade de ficar mais recolhido até amenizar a dor.

Só que o destino ainda reservava uma surpresa linda para o meu amigo: a chegada de um novo amor!  Rico conheceu Nilva, eles se encantaram um pelo outro e a vida ganhou novo sentido.

E tempos depois, nossa amizade floresceu novamente em um Domingo de Ramos, quando ele deixou em nossa caixa de correio da casa de Guararema, o ramo bento recebido na missa, um símbolo que durante muitos anos marcou nossos encontros de confraternização da Páscoa. Uma surpresa carinhosa e renovadora!

Eu e Cidinha ficamos muito felizes com o nosso reencontro, Henrique e Nilva são amigos muito queridos e importantes na nossa vida.

Nilva e Henrique

Uma coisa muito bela que Platão disse é que…

“A amizade é uma predisposição recíproca que torna dois seres igualmente ciosos da felicidade um do outro”.

Platão

Então, deixo tomar conta de mim um sentimento de gratidão em relação às pessoas singulares que encontrei nessa vida… pessoas que, a exemplo de Henrique, faço questão de acompanhar e manter por perto.

1 comentário


  1. De fato, para os conhece há mais de 35 anos, percebe a bela e fraterna relação que os une, Dantinho como o Rico(Henrique) o chama.
    Abração e desejo de que essa relação se perpetue.
    Jera

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