Vai um café?

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A pausa para um belo café se faz necessária. Fecho o livro de Confúcio que estava lendo, mas uma das últimas frases lidas passeia pela minha cabeça: “o homem superior atribui a culpa a si próprio; o homem comum, aos outros”. Deixo o livro sobre a mesa e me levanto, caminhando até a porta que dá para a varanda do meu escritório.

Com a xícara em mãos, observo a cidade pulsante abaixo. O horizonte pontilhado de arranha-céus parece um gráfico de barras dos meus últimos relatórios financeiros. Sorrio com a ironia da comparação, mas minha mente volta às palavras de Confúcio.

Em minha longa trajetória, não apenas como empresário, mas como ser humano, quantas vezes não fui tentado a culpar os outros pelos meus equívocos? É tão fácil apontar o dedo, tão conveniente encontrar bodes expiatórios. O sabor amargo do café se mistura com a acidez dessa reflexão e as palavras de Confúcio ecoam em minha mente, desafiando anos de hábitos arraigados não só no mundo corporativo, mas em minha vida pessoal.

No caminho de volta para a minha mesa, passo pelo lindo quadro que retrata tão bem o olhar carismático de meu pai e tenho a sensação de ouvi-lo mais uma vez dizer: “filho, o sucesso tem muitos pais, mas o fracasso é órfão. Nunca se esqueça de quem é o verdadeiro responsável pelo seu destino”. Essas palavras, tão semelhantes às do filósofo chinês, parecem ganhar nova vida agora.

Sinto o calor da bebida se espalhar, assim como a compreensão dessa antiga sabedoria começa a penetrar em meu ser. Em um mundo onde todos parecem ter todas as respostas, aprendi que a verdadeira sabedoria começa com três palavras simples: “Eu não sei”. A humildade de reconhecer minhas limitações abriu portas para crescimento e conexões que jamais teria imaginado, tanto nos negócios quanto em minhas relações pessoais.

E penso: nesta época de retrospectivas e planejamentos, podemos fazer mais do que projetar metas para o próximo ano. Podemos nos comprometer a ser pessoas melhores, mais conscientes e responsáveis. A verdadeira magia do Natal não está nos presentes ou nas festas, mas na transformação que podemos realizar em nós mesmos e, consequentemente, em todos os nossos círculos de convivência.

Que neste Natal, e em todos os dias que se seguirem, possamos aspirar a ser o “homem superior” de Confúcio. Não por status ou poder, mas por sabedoria. Pois ao assumirmos a responsabilidade por nossas ações, não apenas elevamos nossos negócios e relacionamentos, mas elevamos o nosso autoconhecimento e a vontade de nos transformarmos em seres humanos melhores.

E quem sabe, num futuro próximo, ao olhar novamente pela varanda do meu escritório, eu veja uma cidade diferente. Uma cidade onde as pessoas não apenas busquem o sucesso individual, mas também o bem comum. Onde líderes não apenas comandem, mas também sirvam. Onde o valor de uma pessoa não seja medido apenas por seus bens, mas pelo impacto positivo que causa.

Sirvo-me de um pouco de água. O livro de Confúcio parece me fitar, como se me desafiasse a colocar em prática o que aprendi. Com um suspiro determinado, puxo uma folha de papel. É hora de escrever isso tudo que acabou de passar pela minha cabeça.

Enquanto São Paulo continua seu ritmo frenético lá fora, aqui em meu escritório, uma revolução silenciosa está prestes a começar. E talvez, apenas talvez, esse seja o verdadeiro milagre de Natal – a capacidade de olharmos para dentro, assumirmos nossas responsabilidades e nos comprometermos com uma mudança genuína.

Neste momento, percebo que o verdadeiro presente de Natal que posso dar a mim mesmo e aos outros é a promessa de ser melhor a cada dia. De assumir meus erros, aprender com eles e usar esse conhecimento para crescer não apenas como empresário, mas como pai, amigo e cidadão.

O resto do café esfriou na xícara, mas o calor da reflexão permanece. Enquanto a cidade se prepara para as festividades natalinas, eu me preparo para uma jornada de autoconhecimento e responsabilidade. E neste instante, compreendo que o maior luxo que possuo não está nos bens materiais, mas na capacidade de me reinventar e de impactar positivamente o mundo ao meu redor.

Com um último olhar para a cidade, volto à minha mesa. O livro de Confúcio agora parece sorrir para mim. Abro-o novamente, pronto para mais uma lição de sabedoria. Afinal, o aprendizado, assim como a vida, é uma jornada contínua. E neste Natal, meu maior desejo é que todos possamos encontrar a coragem de olhar para dentro e a força para mudar o que for necessário.

Feliz Natal!

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