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Quanto tempo é tempo demais para não ver alguém que marcou sua infância/adolescência?
Sessenta anos sem ver o meu amigo Mario Cocito, o Lalo. Sessenta anos é quase uma vida inteira. É crescer, é trabalhar, é envelhecer, é se tornar quem você é hoje. E mesmo assim, quando você ouve a voz dele ao telefone depois de seis décadas, parece que o tempo não passou.
Vinte dias depois daquele telefonema que reabriu uma porta que estava trancada há 60 anos, eu estava convidando Lalo e Luigi para um encontro. Luigi, sim, aquele que nunca deixei de ver, que acompanhei a vida toda. Mas Lalo… Lalo havia saído do meu radar. A memória que fiquei pensando seria só isso mesmo, uma memória.
E aí você descobre que não é.
Cenas do encontro
Marquei para as 16h numa quarta-feira no meu escritório. Lalo e Luigi pediram para mudar para as 17h, pois jogariam golfe e estariam livres depois. Claro que aceitei. Aos 87 anos, alguém que joga golfe merecia chegar a uma reunião de amigos depois de um esporte que ama.
Conversamos por uma hora no meu family office. Uma hora que foi só o início de um filme. Lembranças do Colégio Dante Alighieri emergiram como cenas que a gente havia ensaiado e nunca mais assistiu até aquele momento.
Depois fomos para um bar alemão que eles escolheram. Chegamos cedo para evitar lotação. Três homens de 87 anos, sábios o suficiente para saber que não queremos estar em tumulto, o que queremos é conversar e ouvir um ao outro sem gritar por cima de outras vozes.
Três vidas, três caminhos, uma essência
Lalo é engenheiro mecânico. Assumiu a gestão da empresa familiar de fabricação de motores e segue ativo, afinal jogar golfe depois dos oitenta não é amador, é dedicação. Seu pai, Renato Cocito, foi médico da nossa família quando éramos pequenos. Clínico geral, cirurgião, coproprietário da antiga Casa de Saúde Itapeva, localizada na rua Itapeva 240, na Bela Vista, nas décadas de 1940 e 1950. Lalo herdou aquela capacidade de precisão que você vê em engenheiros, aquela forma de pensar que constrói máquinas. Mas também herdou algo mais raro: um casamento que acompanha o ritmo da vida.
Luigi é arquiteto. Nascido na Itália (provavelmente napolitano, daquele jeito que um napolitano carrega a Itália dentro dele). Nunca adquiriu cidadania brasileira, se você acredita. Uma vida inteira aqui e ainda é italiano de coração. Foi sócio do Ricardo, meu primo arquiteto que já se foi. A parceria não prosperou, mas Luigi prosperou. Hoje é solteiro, gosta de curtir a vida com as atividades que o fazem bem. Luigi não está esperando nada, está vivendo.
E eu, bem, eu sou Dante. Que comecei na Ramenzoni Chapéus aos 21 anos e aqui estou, em meio a muitos planos para a Papirus, pensando em novos negócios, e vendo a vida como um roteiro que sempre ganha novos atos.
Três trajetórias completamente diferentes. Três maneiras de reinventar-se ao longo de 60 anos. Lalo dentro da engenharia e da empresa familiar, ajustando máquinas e estruturas. Luigi na arquitetura, desenhando espaços. Eu na fabricação de chapéus, depois papel, e outros investimentos. Três caminhos que começaram no mesmo pátio de um colégio, que se entrelaçaram em amizades, que divergiram para destinos que pareciam ter nada em comum.
Mas quando a gente se senta numa mesa e a conversa flui, sobre famílias, carreiras, investimentos e a vida que construímos, a gente descobre que a essência do que nos fez amigos está lá, intacta.
Durante a nossa prosa, Luigi soltou uma bomba: dos 30 alunos da nossa turma, 15 já faleceram. Metade. Ficamos em silêncio por alguns segundos quando ouvimos isso. Porque é triste, mas é realidade. Porque enquanto a gente estava aqui, vivendo, trabalhando, amando, tendo filhos, alguns dos nossos camaradas de banco de escola não chegaram até aqui.
Mas sabe o que é mais interessante? Não ficamos tristes, ficamos aliviados. Porque a gente ainda está aqui e isso é mais do que um bom motivo para aproveitar cada minuto. Especialmente ao lado de pessoas queridas, que fizeram parte das cenas da nossa vida dos tempos escolares.
Porque a vida não te dá múltiplos convites, Ela te dá um encontro. Depois você escolhe se volta ou se fica pensando “um dia a gente se vê de novo”. E diante desse pensamento resolvi propor que nos encontrássemos regularmente, para conversar em italiano.
Luigi adorou a ideia, porque italiano é a língua da infância dele e também é a língua que nos conecta àquele tempo. É exercício mental, claro, mas é mais que isso, é um ritual. É como se disséssemos: “A gente vai cuidar melhor dessa amizade.”
Depois, enquanto escrevia essa postagem, tive uma outra ideia que ainda vou propor aos meus amigos: por que a gente não tenta localizar os outros colegas de escola que ainda estão vivos e reúne todo mundo?
Porque se metade da turma se foi, a outra metade está viva. E meu Deus, como a gente merece estar vivo junto.
E penso isso porque o que eu senti naquele dia foi alegria pura. Aquela alegria que você só sente quando está vivendo uma cena importante e sabe, com toda a certeza, que está vivendo.
Porque é isso. Aos 87 anos, a gente ainda tem planos bem ousados. Lalo quer viver até 110. Luigi entre 100 e 110. Eu já falei que meu objetivo é 120. A gente não está aqui esperando que a vida termine, mas sim dizendo: “A vida continua e queremos vivê-la plenamente.”
Quantas pessoas conseguem dizer isso? Quantas pessoas da nossa idade ainda estão imaginando futuros, convidando amigos para encontros e propondo rituais de reconexão?
Nós estamos e isso é muito bom. Porque a verdade é que você só tem dois momentos na vida: o momento de viver e o momento de lamentar não ter vivido quando podia. E nós três – Lalo, Luigi e eu – escolhemos o primeiro.
Sessenta anos passaram, metade da turma se foi. Mas nós três ainda estamos aqui, praticamos atividades físicas, assinamos contratos e ainda sonhamos com longevidades possíveis como 110 e 120 anos.
A gente ainda está aqui. E isso é mais do que um bom motivo para aproveitar cada minuto ao lado das pessoas queridas que fizeram parte das nossas cenas mais importantes.
Porque a vida fica bem mais agradável e bonita quando podemos reencontrar pessoas que já não vemos há um tempo, mas basta os olhos se encontrarem e todo o sentimento guardado sai da caixa.
Portanto, se você tem alguém que deseja rever, não espere. Ligue. Convide. Encontre. Porque cada encontro pode ser uma cena vai desencadear muitas outras cenas felizes.