Os 3 caminhos para o fracasso

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Eu tinha entre 13 e 14 anos. Estava em casa fazendo um trabalho de pesquisa cercado por enciclopédias italianas e enfrentava aquele “exercício bárbaro” de traduzir textos do italiano para o português, palavra por palavra.

Não era nada fácil, mas havia algo mágico naquilo que eu não percebia na época: cada palavra que procurava no dicionário, cada frase que reescrevia, cada conceito que traduzia, tudo ficava em minha mente. A dificuldade era a ferramenta, que dava um baita trabalho, mas o esforço era o ensinamento.

Anos depois, quando descobri a frase de São Beda, “há três caminhos para o fracasso: não ensinar o que sabe, não praticar o que ensina, e não perguntar o que ignora”, entendi que aquele exercício bárbaro da adolescência tinha me mostrado exatamente o oposto do fracasso.

Lá na antiguidade, São Beda já falava sobre uma verdade que a gente não gosta muito de encarar até hoje: quando você não ensina o que sabe, enterra o conhecimento.

Acho um verdadeiro desperdício guardar tudo que aprendemos só para a gente, sem compartilhar. É como ter um tesouro e nunca mostrar a ninguém. O conhecimento não cresce quando fica trancado, pelo contrário, definha até virar uma curiosidade, uma anedota, um “eu sabia disso”, mas ninguém mais sabe.

Professores entendem isso muito bem, sabem que a verdadeira medida do sucesso não é quanto sabemos, mas quanto conseguimos fazer outros saberem. Porque ensinar multiplica, perpetua e é o contrário de fracasso.

Quando ajudei a construir a Papirus, eu tinha conhecimento sobre fabricação, mercado, inovação. Se tivesse guardado tudo isso só para mim, a empresa teria um teto, uma limitação. Ao compartilhar com os colaboradores não só como fazer, mas porque fazer daquela determinada maneira, a empresa cresceu com ideias que não eram só minhas.

Ensinar é multiplicar. Não ensinar é o primeiro caminho para o fracasso.

O discurso que não combina com a vida

Agora tem a segunda parte, e essa dói em quem realmente pensa sobre isso: não praticar o que você ensina é a desconexão mais perigosa que existe. É dizer uma coisa e fazer outra.

Pai que diz “educação é importante”, mas nunca lê um livro. Empresário que prega responsabilidade, mas desrespeita colaboradores. Tudo isso é fracasso visível, que todo mundo vê e que ninguém acredita. Porque as pessoas não acreditam no que você fala. Elas acreditam no que você vive.

Quando decidi que não cursaria química industrial, mas engenharia mecânica/industrial, eu fazia perguntas constantes, estudava bastante e buscava conhecimento fora da sala de aula, com professores que topavam conversar além do horário.

E mais à frente, ao assumir a presidência da Papirus, eu estava lá nas máquinas, aprendendo, vendo como as coisas funcionavam, vestindo calça jeans no dia a dia, e carregava uma chave inglesa, outra de fenda e um alicate no bolso traseiro. Se visse um parafuso solto na máquina, eu apertava. Os funcionários comentavam “como o presidente anda de jeans?” E eu respondia com um sorriso: porque um presidente que aprende na prática é mais efetivo que um presidente que só teoriza.

Não praticar o que você ensina é o segundo caminho para o fracasso e é o mais visível.

A pergunta que você tem medo de fazer

Não perguntar o que não sabemos é uma condenação silenciosa à estagnação. É preferir uma falsa imagem de autossuficiência a uma chance real de crescimento.

Quando eu era jovem, a timidez me acompanhava em todas as situações. Tinha vergonha de perguntar, pensava que admitir que não sabia era sinal de fraqueza.

Mas aí eu me mudei para os Estados Unidos aos 18 anos e a história mudou da água para o vinho, porque quando você está sozinho em outro país, você entende rapidinho que é hora de perguntar o que não sabe ou ficará em maus lençóis. Diante dessa nova realidade, passei a dizer: “eu não sei como proceder nesse caso, pode me explicar?”

E aprendi que quem tem coragem de dizer “eu não sei”, começa o caminho de “agora vou saber”. Foi assim que resolvi problemas de administração financeira, adaptação cultural e mais um monte de coisas que não aprendemos em sala de aula.

Hoje, aos 87 anos, vejo muita gente evitando perguntas sobre coisas novas: inteligência artificial, armazenamento em nuvem, tecnologias que estão mudando o mundo. Preferem fingir que sabem a admitir que não sabem.

Isso é o terceiro caminho para o fracasso.

O dilema do conhecimento digital

Agora vem a complicação. Porque em 1950, quando eu estava traduzindo aqueles textos italianos, havia esforço, havia dificuldade que me forçava a absorver. A enciclopédia Barsa não era rápida, eu precisava procurar sobre o assunto que queria, ler e escrever para organizar as ideias.

Hoje vejo todo mundo digitando no Google ou pedindo ajuda para a inteligência artificial e a resposta vem em meio segundo. E se copia, cola e envia sem nem verificar se faz sentido ou não.

A inteligência artificial surgiu e é interessante, não me entendam errado. Mas ela não pensa, não entende e nem aprende por você.

Os antídotos são simples

Os três caminhos para o fracasso que São Beda descreveu não são abstratos, por sinal são bem práticos e o antídoto para cada um é simples:

Ensine. Compartilhe o que você sabe de diversas formas: verbal, escrita, através da música, da estruturação de uma empresa. Conhecimento compartilhado é conhecimento multiplicado.

Pratique. Faça o que você prega. Seja coerente. As pessoas não seguem discursos, seguem exemplos. (E sim, às vezes isso significa usar jeans e carregar uma chave inglesa no bolso.)

Pergunte. Tenha coragem de dizer “eu não sei”. Supere a timidez. Busque conhecimento onde quer que esteja, porque a ignorância é escolha, e você pode sempre escolher diferente.

Diante de ferramentas como internet e inteligência artificial, use-as como ferramentas, não como substitutos. Questione, verifique e procure pensar criticamente. A facilidade de acesso à informação não pode virar desculpa para preguiça mental.

E chegamos na reflexão de hoje: qual dos três caminhos para o fracasso você está trilhando sem perceber?

Em tempo: São Beda (673-735) foi um monge beneditino anglo-saxão, erudito e historiador considerado um dos maiores intelectuais da Idade Média. Autor da História Eclesiástica do Povo Inglês, é celebrado pela dedicação ao ensino, transmissão de conhecimento e preservação da sabedoria através da escrita, princípios que ressoam profundamente com sua célebre máxima sobre os três caminhos para o fracasso.

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