Amigo de verdade, fala a verdade e continua amigo

Tempo de leitura: 5 minutos

 

No ano de 1998 aconteceu o 95º. aniversário da Harley Davidson; eu e mais trinta motociclistas paulistas formamos um grupo e viajamos para os Estados Unidos com o objetivo de participarmos da comemoração, lá na terra natal da HD, a cidade de Milwaukee.

Quem nos liderou nessa aventura foi a Ana Pimenta, que há 20 anos era bem mocinha, mas se saiu muito bem na empreitada. Por falar em Ana, eu a encontrei na semana passada e ela me contou que está organizando uma nova viagem muito bacana, cujo roteiro será um percurso terrestre do Rio Grande do Sul até Belém, seguido de um percurso aéreo de Belém à Miami e já nos Estados Unidos, 100% sobre duas rodas, até Milwaukee.

Ana vai acompanhar uma amiga que obteve sucesso em uma cirurgia muito delicada a que se submeteu e escolheu fazer essa viagem para comemorar. Um excelente tema para um próximo post, porque nesse de hoje, o protagonista é uma pessoa que também gosta de aventura (até demais!), mas é do sexo masculino e se chama Jorge Brandt.

Ele não foi junto com o grupo para Milwaukee, mas nos encontrou lá, passou uns cinco dias com gente, sempre presente em todas as atividades, almoços, jantares, passeios enfim, participou de todos os eventos.

Nós nos conhecemos nas reuniões de planejamento dessa viagem comemorativa, que seria a minha primeira viagem internacional nesse grupo de motociclistas Harley Davidson.

O assunto que nos aproximou foi uma reportagem publicada pela revista Exame, na edição de abril de 1998, cujo título era “Pai e filhos fazem a lição de casa juntos”. Essa matéria detalhava a minha participação e dos meus 3 filhos em um curso da Amana-Key, para nos embasarmos melhor sobre estratégias para uma sucessão familiar profissional e amena.

Jorge curtiu a matéria publicada, a conversa se expandiu, depois nos encontramos em Milwaukee e a partir daquela viagem vieram muitas outras, para diversas regiões do Brasil, Argentina, Chile, Uruguai e Europa onde passávamos muitos dias juntos, estreitando os laços de amizade.

Quando não estávamos na estrada, nos encontrávamos todas as quartas-feiras, num evento criado pelo nosso grupo de motociclistas que ficou batizado de Quarta sem Lei. Esse evento ganhou esse nome porque, embora não houvesse nenhuma restrição à participação das esposas, elas não aderiram a causa.

Brandt é mais jovem do que eu, aliás todos desse grupo de motociclistas são mais moços, pois eu sou o mais velho da turma, embora não pareça… (Brincadeira!)

Nossa amizade foi crescendo aos poucos, com alguns altos e baixos, porque bons amigos são aqueles que falam a verdade um para o outro. Tivemos nossas encrencas, algumas delas por ele querer elevar pessoas que não mereciam, estilo amigos entre aspas e teve épocas em que eu manifestei meus pontos de vista contrários aos dele, que nunca atrapalharam meu carinho por ele e vice-versa.

Muitas vezes eu procurava dar uns toques pra ele observar melhor quem o cercava, procurar estabelecer parâmetros entre quem era amigo de verdade, de todas as horas, e quem era simplesmente um colega de algum projeto, de alguma viagem ou situação momentânea. E fiz isso muito em função de saber separar as coisas e de, em função de ter mais vivência, ter passado por experiências parecidas e ter quebrado a cara.

Jorge é uma pessoa muito séria, inteligente, acredito que tenha um QI muito alto!  Tem uma história de vida muito interessante, pois lá no comecinho do boom dos computadores, se interessou sobre softwares e hardwares, começou a trabalhar nesse segmento como prestador de serviço, foi aprendendo cada vez mais, até que montou sua própria empresa, Best Software, e segue numa trajetória vencedora dentro do segmento que abraçou.

Em função dos conhecimentos sobre sistemas e também de sua agilidade mental, ele ganhou uma função muito importante no nosso grupo de motociclistas: Road Captain, ou seja, aquele que abre todos os caminhos.

Só que, apesar de ele entender tudo de GPS desde a sua chegada no Brasil, às vezes, quando não estava em um bom dia e ele planejava algo que não dava muito certo na prática, o grupo ficava zoando e ele se aborrecia bastante com isso.

Nesses momentos, eu o chamava num cantinho e dizia pra ele não se chatear porque esse tipo de situação era muito comum de acontecer quando uma pessoa que tem mais conhecimento assume o comando de um grupo, especialmente quando a “ajuda” não é remunerada. Ninguém valoriza trabalho gratuito!

Uma vez, sugeri que ele poderia estabelecer um ganho em que ficasse isento de pagar os gastos da viagem, mas ele nunca quis me ouvir e sempre replicava: “eu não vou cobrar coisa nenhuma, eu faço isso porque sou um apaixonado por motos e por essas viagens que fazemos pelo mundo a fora”.

Tudo bem. Há que se respeitar!

Da mesma forma que respeitei sua opinião, apesar de não concordar, quando veio me contar que, alguns meses depois de passar por uma cirurgia espinhosa que teve que se submeter, iria acompanhar o Rally dos Sertões, pois havia se comprometido com alguns amigos que solicitaram sua ajuda para facilitar a comunicação entre os carros e as motos.

Eu fiquei indignado porque além de não cobrar nada pelo projeto solicitado, ainda correria riscos de retroceder na recuperação da cirurgia entre um solavanco e outro, mas não obtive nenhum sucesso, pois outra grande característica desse meu amigo é ter argumento para tudo e seguir resoluto nas suas convicções.

Paixão por moto tem dessas coisas. Dedicar dias de trabalho sem querer nem discutir a possibilidade de alguma remuneração.

Seguir por caminhos desconhecidos, diferentes dos planejados, se perder pelo caminho e encontrar novas rotas só pelo gosto de novas aventuras (como aconteceu em uma viagem pelo Uruguai, né Jorge?)

Tudo bem. Há de se respeitar.

Jorge Brandt e sua Emilia, a supercuidadora do meu amigo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *