Lembranças gostosas da Páscoa

Tempo de leitura: 4 minutos

Nos meus tempos de menino, Páscoa era sinônimo de farra com os irmãos, primos e toda a vizinhança lá da chácara de Santo Amaro. Nós fazíamos pequenos ninhos embaixo de arbustos para que ficassem protegidos da chuva, colocávamos nossos nomes e ficávamos à espera do “coelhinho” que traria ovos de chocolate de-li-ci-o-sos!

Nessa chácara tinha uns barrancos cobertos de barba de bode, uma vegetação parecida com grama e que durante o outono secava, então nós a pegávamos para forrar os nossos ninhos, colhíamos flores para ornar e ficava tudo muito cheio de graça, graças à nossa imaginação infantil. Nós entendíamos que quanto mais agradássemos o coelho, mais generoso ele seria e deixaria muitos ovos nos nossos ninhos, afinal, ninho foi feito para encher de ovos!

(Só assim eu conseguia entender porque era um coelho a trazer ovos e não uma galinha… que seria mais lógico!)

Essas cenas continuam tão vivas na minha cabeça!

Meus pais compravam chocolates deliciosos e no Domingo de Páscoa bem cedinho eles arrumavam os ovos nos nossos ninhos e ficavam vigiando até que a gente acordasse, com medo de que a cachorrada chegasse antes da gente e fizesse a festa do cacau.

Apesar de não gostar tanto assim de chocolate, eu adorava esse ritual de encontrar os ovos, abrir para ver o que tinha de recheio e depois guardava-os por um bom tempo, acho que só para olhar pra eles e ter novamente essa sensação gostosa sentida na Páscoa. (Na verdade quem comia mesmo era meu pai e minha mãe!)

Lembro que já existia Kopenhagen naquela época, mas meu pai gostava de chocolates belgas, suíços e alemães. (Seu Ziro sabia das coisas!)

E essa tradição ficou tão enraizada em mim, que quando meus filhos eram pequenos eu fazia a mesma coisa com eles, na mesma chácara dos meus pais e eles adoravam, deixando-me feliz e emocionado de poder reviver minha infância que foi tão significativa e prazerosa para mim.

Na escola, ainda bem pequeno, a professora ensinava a fazer ovinhos de Páscoa. Ela colocava a barra de chocolate na panela para derreter e depois nós íamos colocando essa mistura em pequenas formas para que tomasse o formato de ovo; eles endureciam e eram compactos, o recheio era o próprio chocolate. Quando estavam no ponto, nós embrulhávamos em papeis coloridos e levávamos para casa.

Na escola também aprendi que presentear com ovos na Páscoa, às vezes pintados, era um costume de povos antigos, do Mediterrâneo, Europa e Oriente. O ovo simbolizava o nascimento, e com isso a associação com a Páscoa, a ressurreição de Jesus Cristo. O coelho entrou na história por representar reprodução abundante. Isso se deu a partir de contos e histórias infantis produzidas na Europa por volta do século XVIII.

Então, à ideia de nascimento/vida, do ovo, foi acrescentada a ideia de abundância de vida com o coelho.

Na minha família a Páscoa não tinha a obrigatoriedade de seguir uma conotação religiosa, minha mãe era católica e meu pai ateu, então eles equilibravam essa diferença sem fazer pesar em nenhum dos lados. Por exemplo, na Sexta-Feira Santa, minha mãe não comia carne para seguir a tradição apostólica romana e o meu pai, que adorava um bom peixe, saboreava a iguaria com muito gosto.

Muitos anos depois, já casado com a Cidinha, nós fazíamos uma Páscoa muito parecida com a dos meus tempos de criança lá na nossa fazenda, com alegria e visita do coelhinho, e eu lembrava ainda mais dos meus pais, pois como eles, a Cidinha mantém firme suas tradições e preceitos religiosos e eu acato com respeito e fé.

Na atualidade, eu e Cidinha gostamos de estar ao lado de filhos, noras, netos e amigos quando é possível reunir todos e eu particularmente entendo que a Páscoa é um bom tempo para ressuscitar boas ideias, amizades, pedidos de desculpas, sonhos, sorrisos enfim, renovar a alegria de viver.

Então, Feliz Páscoa para todos nós!

 

 

2 Comentários


  1. Tradição é a espinha dorsal da história. Minha descendência é uma vereda de mosaicos coloridos por linhagem variada que vai das terras asiáticas, europeias e acabam tropeçando nas margens atlânticas, nos pampas e até nas montanhas sulamericanas. Não esqueço as origens mesmo com tantos anos q vivo e respiro nas florestas deste vasto verde amarelo. Acolhi todas as tradições e incorporei nessa trama as canções natalinas escandinavas e a busca dos ovinhos da Páscoa escondidos em todos os cantos do jardim e da casa. A algaravia das minhas filhas ainda ressoa nos meus ouvidos com os cantos e risadas novas dos netos q chegaram e continuam chegando. Respiremos essa tradição q alegremente alimenta e fortifica a união das nossas famílias. Feliz Páscoa Dante e Cidinha

    Responder

    1. Caro Zé Maria Marun
      Fiquei muito satisfeito de receber sua opinião sobre a Páscoa, pois se eu fosse falar somente da Páscoa eu falaria coisas bem parecidas com as que falou.
      Você conhece bastante do meu modo de viver pois viajamos juntos e portanto tivemos grandes oportunidades de conversar sobre várias passagens da nossa vida, o que foi muito bom. Portanto, agradeço muitíssimo seus comentários.
      Abraço.

      Responder

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *