A folia acabou. E agora?

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O Carnaval passou. As fantasias voltaram para o armário, o confete foi varrido, e a rotina bate à porta novamente. É sempre assim: depois da festa, vem aquele momento de olhar para o ano que está correndo e pensar: “E agora? Como faço deste ano diferente dos anteriores?”

A resposta pode estar em algo que Confúcio disse há milênios: “Não corrigir nossas faltas é o mesmo que cometer novos erros.” Simples assim. Se você não corrige o que deu errado, vai continuar errando. E errar de novo é perder tempo, oportunidade e, muitas vezes, qualidade de vida.

Tem uma coisa curiosa que percebi ao longo da vida profissional: os erros que cometemos no início do dia são muito mais fáceis de corrigir do que os do final. No começo do dia, estamos descansados, com a mente fresca. Se algo dá errado, temos energia e clareza para consertar na hora. Mas no fim do dia? A fadiga bate, a vontade de ir para casa aumenta, e acabamos empurrando o problema para debaixo do tapete.

E aí começa o ciclo: o erro não corrigido hoje vira o erro repetido amanhã. E o erro repetido vira hábito. E o hábito vira um problema crônico que compromete o desempenho e a qualidade do trabalho.

Anotar, revisar, corrigir

Uma prática que adotei e recomendo: anotar projetos e decisões importantes, e revisá-los no dia seguinte. Parece bobo? Talvez. Mas funciona.

Quando você revisa com a mente descansada, identifica falhas técnicas ou objetivas que passaram despercebidas no calor do momento. Vê aquele detalhe que faltou, aquele cálculo que não fechou, aquela abordagem que poderia ter sido melhor. E a correção imediata eleva seu nível de precisão. Você aprende mais rápido e evita desperdício de tempo.

Para problemas recorrentes ou projetos novos, descobri que a correção funciona melhor quando envolve um grupo de pessoas que têm contato direto com a situação.

Uma falha em um equipamento, por exemplo. Se você se sentar sozinho para pensar na solução, vai ter uma visão limitada. Mas se reúne o operador da máquina, o técnico de manutenção e o engenheiro, cada um traz uma perspectiva diferente. A discussão coletiva leva a soluções melhores e previne a repetição do problema.

Claro que isso exige comunicação clara entre os níveis hierárquicos. Quando essa comunicação falha, pequenos erros se acumulam e viram grandes problemas que a gerência só percebe quando já é tarde demais.

Corrigir erros também significa ter paciência para ensinar, especialmente quando lidamos com mudanças tecnológicas ou novos processos. Nem todo mundo se adapta na mesma velocidade. Tem gente que resiste, que tem medo, que simplesmente precisa de mais tempo. E está tudo bem.

A correção efetiva não é impor uma mudança de forma autoritária. É conduzir, explicar, ter paciência. E, ao mesmo tempo, ter coragem para mudar o que não está funcionando, mesmo quando é desconfortável.

Corrigindo quem a gente é

Mas não é só no trabalho que precisamos corrigir nossas faltas. É na vida pessoal também. Nos relacionamentos familiares, amorosos, nas amizades. Nos nossos próprios comportamentos.

Teimosia excessiva, egoísmo, mentiras pequenas que parecem inofensivas, mas corroem a confiança. Se não corrigimos essas coisas, elas se repetem e se amplificam. E aí os conflitos ficam maiores, as relações se desgastam.

Aprendi que perceber “o que é agradável para os outros e o que não é” é algo que aprendemos com o tempo. E quando você apara as arestas daquilo que percebe que não está sendo agradável para o outro, evita muitos conflitos desnecessários.

Vou dar um exemplo prático: o hábito de usar palavrões excessivamente. Tem gente que fala palavrão a cada três palavras. Em casa, no trabalho, na frente de criança, na frente de desconhecidos. E não percebe o desconforto que causa.

Esse é o tipo de coisa que, se não for corrigida, transmite uma imagem negativa. Faz as pessoas pensarem: “Essa pessoa não sabe se controlar. Não tem educação. Não sabe se adaptar ao ambiente.”

A educação familiar inicial é de extrema importância para moldar esse comportamento. Mas mesmo quem não teve essa educação pode se corrigir. Basta perceber o impacto e fazer o esforço de mudar.

Outra coisa importante: aprender a não externalizar o mau humor. Todo mundo tem dias ruins. Todo mundo acorda irritado às vezes. Mas descontar isso na família, nos colegas, nas pessoas que não têm nada a ver com o que te deixou irritado? Isso cria um ambiente pesado, desagradável.

Corrigir isso não é reprimir emoções. É aprender a gerenciá-las. É perceber quando você está irritado e fazer o esforço consciente de não transformar os outros em alvos da sua irritação. É um exercício diário. E faz uma diferença enorme na qualidade de vida, tanto sua quanto das pessoas ao seu redor.

A coragem de perguntar

Uma das melhores formas de evitar erros é não ter vergonha de fazer perguntas.
Mesmo as que parecem bobas e as que você acha que “deveria” saber a resposta. Pergunta. Porque é melhor parecer ignorante por cinco minutos do que cometer um erro que vai te perseguir por muito mais tempo.

E aqui está a coisa: ninguém sabe tudo. Todo mundo está aprendendo o tempo todo. Os que fingem que sabem tudo são os que mais erram e menos corrigem.

Quando você adota o hábito de corrigir suas faltas, sejam elas profissionais ou pessoais, várias coisas boas acontecem: você economiza tempo, aprende mais rápido e para de repetir os mesmos erros.

Sua qualidade de vida melhora. Há menos atritos, menos conflitos desnecessários, mais harmonia. Você desenvolve habilidades sociais. Aprende a ler as pessoas, a ajustar seu tom de voz, sua maneira de se expressar, sua forma de agir.

E, talvez o mais importante: você se torna uma pessoa com quem os outros gostam de conviver e trabalhar. Porque todos sabemos que ninguém quer estar perto de alguém que comete os mesmos erros eternamente e nunca aprende.

Então, agora que o Carnaval passou e a rotina voltou, que tal fazer diferente este ano e adotar a prática de revisar suas decisões no dia seguinte? De reunir o grupo para discutir soluções em vez de tentar resolver tudo sozinho? De perceber o que incomoda os outros e fazer o esforço de corrigir?

Você pode também tentar controlar melhor seu mau humor. Reduzir os palavrões e perguntar quando não souber alguma coisa.

Pequenas correções. Feitas diariamente. Que se acumulam ao longo do ano e transformam quem você é, como você trabalha, como você se relaciona.

E não precisa ser perfeito, porque ninguém é. Mas pode ser melhor, um pouco melhor a cada dia, uma pequena correção de cada vez.

Que tal começar hoje?

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