Sessenta anos depois

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Liguei para o meu amigo Luigi Fiocca para checar uma informação sobre uma foto para um novo projeto que estou criando, uma coisa levou à outra e em um dado momento da conversa, ele me perguntou: “Dante, não sei se você vai se lembrar de um ex-colega nosso, do Colégio Dante Alighieri… acho que não, mas eu sempre comento de você com ele.”

_ Como ele se chama?

_ Lalo.

_ Ah! Mário Cocito. Claro que me lembro dele e muito. Mas tem mais de 60 anos que não nos falamos. Você tem o telefone dele?

_ Vou te mandar.

Cinco minutos depois, eu estava ligando para um número que provavelmente não tinha discado em toda uma vida.

A voz que atendeu do outro lado da linha era a mesma voz que guardava nas minhas lembranças, eu disse quem era, e o silêncio durou exatamente aquele tempo que leva para sessenta anos caírem do outro lado da linha.

“Dante?!”

“Mário!”

Pronto. Estava feito. Ambos surpresos, ambos felizes. Aquele tipo de felicidade que não precisa de explicação porque é feita de nostalgia, de infância, de tempos em que éramos pessoas diferentes, mas profundamente as mesmas. A conversa foi breve, mas suficiente para reabrir a porta de um arquivo que eu tinha guardado muito bem, obrigado.

As famílias Cocito e Ramenzoni. Próximas. Muito próximas.

O pai de Mário, Dr. Renato Cocito, era nosso médico de família. E a mãe dele, Fiorella, era grande amiga de minha mãe. Aquele tipo de amizade feminina que faz com que as casas sejam extensões uma da outra.

Ambos os pais se conheciam do Iate Clube Itaupu – o antigo Iate Club Itália. Aquela era uma época em que o Iate Club significava algo diferente. Significava aquele mundo que a gente vê em fotografias antigas e pensa “que saudade de um tempo que nunca vivi”.

O Guarujá e o peixe que marca

E então veio a memória mais vívida: a casa de praia dos pais de Mário. No Guarujá. Morro do Maluf. Final da Praia de Pitangueiras.

Eu tinha entre 10 e 13 anos. Naquela faixa etária em que tudo é descoberta, em que um fim de semana na praia era uma aventura sem preço.

Mas tem uma memória que atravessou todas essas décadas intacta: o peixe à escabeche preparado pelo pai de Mário. Ele pescava garoupas.  Com aquelas mãos de pescador que conhecem o mar como ninguém e depois preparava um peixe à escabeche que… bem, deixou um sabor que a memória nunca apagou.

Até hoje é um dos meus pratos favoritos de peixe. E sempre que como, aquele gosto me traz de volta ao Guarujá, ao pai do meu amigo que pescava, àquela juventude que parecia que nunca ia ter fim.

Isso é memória afetiva. Não é só lembrar. É o corpo inteiro lembrando. É o paladar se tornando uma máquina do tempo.

Depois do telefonema com o Mario, voltei no tempo e lembrei de coisas que até então não sabia que havia guardado. Lembrei da irmã dele, Silvana, que era muito bonita na juventude. De como Mário era excepcionalmente rápido. Vencia todas as corridas na escola. Aquele menino que saia voando, que ninguém alcançava, que parecia ter molas nos pés.

Como é que essas coisas permanecem tão vívidas após 60 anos? Como é que um rosto, uma habilidade, um momento no tempo continua ali, gravado, esperando por essa ligação para explodir em cores e sensações?

Um simples reencontro, uma ligação, apenas isso foi suficiente para desencadear uma cascata de memórias que estavam ali, bem vivas na lembrança, esperando para ganhar novo fôlego. E isso faz a gente pensar. Quantas memórias estamos deixando para trás? Quantas pessoas que marcaram nossas vidas estão desaparecendo na névoa do “não tenho tempo”?

Porque o que a gente aprende com algo assim é que memória afetiva não é luxo. É necessidade. É o que nos torna humanos. É o que nos conecta não só com outras pessoas, mas com nós mesmos, a versão de nós mesmos que fomos um dia.

Planos de um drink e histórias não contadas

Ao final do telefonema, combinamos: “vamos tomar um drinque em breve?”

“Com certeza!”

E quando isso acontecer, e vai acontecer, vou relembrar com ele tudo aquilo que a memória trouxe. E provavelmente ele vai lembrar de coisas que eu esqueci. E vamos rir. E vamos ficar uns minutos em silêncio, absorvendo o fato de que mais de sessenta anos passaram e ainda assim aquela amizade está ali, intacta, só esperando para ser reacendida.

Então fica aqui mais uma reflexão DR: suas memórias afetivas estão vivas? Aquelas pessoas que marcaram seu caminho, que deixaram sabor na sua vida, que corriam mais rápido que você ou tinham irmãs bonitas, elas ainda estão em sua vida? Ou estão lá, na névoa, esperando por aquela ligação que talvez nunca venha?

Porque uma coisa que a passagem do tempo me ensinou é que ele passa, sim.  Mas as memórias afetivas? Essas não envelhecem. Elas só ficam mais preciosas.

Um simples telefone. Uma voz conhecida. E de repente você viaja no tempo sem sair do lugar.

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