Nascemos com nome e sobrenome e eles precisam ser valorizados, sim!

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Hoje em dia, várias pessoas do meu ciclo de convivência costumam me olhar com certo espanto quando me perguntam se conheço algum fulano e eu respondo “que fulano?”; “Fulano Salles ou Meireles?”; de onde saiu “fulano?”

Aí eles retrucam, não sei o sobrenome, mas para que sobrenome, fulano é fulano de tal lugar e pronto. Acredito que muitos de vocês já passaram por uma situação parecida…

Só que não é bem assim e resolvi escrever sobre esse tema porque acho de grande valia expor esse meu ponto de vista e ver se tem leitores, amigos ou familiares que concordam comigo.

Nos meus tempos de criança, desde a minha tenra idade, quando me perguntavam o meu nome eu dizia: meu nome é Dante Ramenzoni.

Assim mesmo, com ênfase, porque meu pai também falava o sobrenome dessa forma e se preocupava sempre em me perguntar qual era o sobrenome de todos os meus amiguinhos da turma da escola, para saber com quem eu estava passando o meu tempo e que tipo de história poderia estar ouvindo.

Muitos anos depois, quando meus filhos começaram a frequentar a escola, eu comecei a perceber com mais clareza que as pessoas já não davam mais tanta importância para o sobrenome; molecada chegava em casa e eu gostava de provocar assuntos que envolvessem o que eles estavam aprendendo na escola, perguntava o que havia rolado na aula de Educação Física, se tinham entendido as explicações dadas pelos professores de Geografia, História e eles contavam as histórias vividas no ambiente escolar e acabavam comentando sobre os coleguinhas que gostavam mais de brincar e deixavam escapar que se davam melhor com o Zezinho, com o Luisinho, com o Mário… e eu então dizia:

_ Espera um pouco, Luisinho de quê?

_ Ah, não sei, pappi! Que diferença faz isso?

_ Mas você precisa saber com quem está andando.

_ Ah, seu Dante Ramenzoni, deixa isso pra lá!

Daí, devo confessar, quando queria saber mais sobre os companheiros de bancos escolares dos meus filhos, eu tinha que ir até o Dante Alighieri e demais colégios por onde eles passaram para me informar sobre o tema.

Só que eu fui percebendo que isso não acontecia apenas com os meus filhos, mas com os filhos de todo mundo, com toda a nova geração que estava se formando a partir deles. Então eu chamava os meus filhos para novas conversas e dizia que sobrenome era importante sim, porque significava a qual família as pessoas pertenciam. (Nos Estados Unidos e vários países europeus, sobrenome é tão importante que vem primeiro que o nome!)

Um dia o meu primeiro filho, Marco Fabio, me perguntou: “por que que nós temos que saber o sobrenome?”

“Porque o sobrenome diz tudo sobre a sua origem, a sua história de vida, a sua ancestralidade e você um dia vai precisar passar isso para os seus filhos, seus filhos vão passar para os seus netos e assim sucessivamente! E isso não vai mudar!”

Fato. Eles foram até entendendo, mas continuaram não dando a menor bola para o sobrenome.

E eu continuo pensando que as pessoas podem mexer no nome o quanto quiserem: colocar no aumentativo, tipo Carlão; apelar para o diminutivo se quiser usar uma forma mais carinhosa, Carlinhos; seguir a onda das redes sociais e chamar as pessoas apenas pela primeira sílaba, Ma, Dan, Ci… Vale tudo! Mas o sobrenome precisa ganhar lugar de destaque. Precisa ser falado com a boca cheia, como eu falo o meu: RAMENZONI!

As escolas deveriam ensinar isso!

A importância e o orgulho de conhecer a ancestralidade através do sobrenome e também o zelo que devemos ter com ele, afinal somos parte de uma história que precisa ser respeitada e preservada. Quantas pessoas tiveram que que atravessar oceanos, quantas morreram, quantas participaram de guerras para que estivéssemos aqui?

Quantos momentos de amor aconteceram para ganharmos vida e chegarmos no ponto que estamos hoje?

Nunca iremos pagar aos nossos antepassados o valor da vida que nos deram, portanto, para fazer valer, o mínimo que podemos fazer é aumentar o valor de nossos sobrenomes através de ações dignificantes, éticas, para honrar quem nasceu antes de nós.

Quem chegou e desbravou, merece ser lembrado, e que forma melhor do que divulgar o sobrenome com força, desenvoltura, alegria!

Vamos defender novas ideias e ideais que acreditamos? Vamos!

Vamos lutar por igualdade social para todos? A hora é agora!

Mas podemos fazer tudo isso preservando nossas raízes, porque isso é vital para a preservação de nossa humanidade.

Por que os sobrenomes foram inventados?

A história é bem extensa, mas vou simplificar porque, além de ser interessante, vai ajudar a entender porque é importante ter um sobrenome e zelar por ele.

Antigamente, todo mundo só tinha o primeiro nome e deu tudo certo até que começaram as migrações e a população começou a aumentar… precisava arrumar um jeito de diferenciar as pessoas senão ia dar a maior confusão.

Imaginem só! Como enviar uma carta ou uma encomenda a um “fulano” específico se haviam centenas de outros “xarás” na mesma região? Como deixar o patrimônio conquistado à duras penas para os descendentes? Certamente, os sobrenomes foram inventados para resolver esses e outros problemas.

Mas de onde será que saiu tanto sobrenome?

Alguns estudiosos do assunto acreditam que os primeiros sobrenomes apareceram de várias formas diferentes e algumas delas são:

  • De acordo com o lugar onde a pessoa nascia. Por exemplo Isabela Belmonte, porque no seu lugar de origem havia um monte considerado bonito. E assim vieram os Rocha, em alusão à alguma pedra, os Macieira, os Campos etc.
  • Em alusão ao nome do pai ou da mãe. Rodrigues, filho de Rodrigo. Fernandes, filho de Fernando, ou seja, o sobrenome significava que era filho de alguém e isso já ficava bem claro na composição do sobrenome.
  • Para adjetivar o patriarca ou algum outro familiar e essa modalidade gerou sobrenomes curiosos, a exemplo de Severo, Franco, Calvo, Gentili.
  • Para ressaltar a profissão dos pais, como Bookman (livreiro), Schuhmacher (sapateiro), Ferreira.

Com o tempo essa prática foi se amplificando, mais pessoas e sobrenomes foram surgindo até que chegou o ponto de ser meio constrangedor você não ter um sobrenome – significava que você não pertencia a nenhuma família, logo, não teria história para contar, não saberia a própria origem.

Como se vê, várias histórias originaram os sobrenomes, e eu só sintetizei um pouco delas, mas uma coisa continua ainda mais clara na minha cabeça: filhos precisam honrar e se orgulhar de suas origens, dar o exemplo para as gerações que irão sucedê-los, para que elas façam o mesmo e as histórias familiares sempre se mantenham vivas e bem nutridas.

(Em tempo, eu tive dois momentos importantes na minha vida que jamais esqueço a sensação de orgulho e contentamento que senti: o primeiro foi no início da vida escolar, quando a primeira palavra que aprendi a escrever foi Ramenzoni.

A segunda foi a primeira vez que o meu pai me levou na fábrica de chapéus e eu vi o letreiro grande lá no alto do prédio, onde se lia o meu sobrenome. Indescritível o que senti! Gostaria que um dia, meus netos e bisnetos sentissem a mesma coisa.)

 

 

 

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