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Uma árvore caiu na minha propriedade em Guararema há cerca de um ano. Não foi por minha mão, mas em consequência de uma chuvarada daquelas acompanhadas de vento. Na verdade, foi também obra do acaso, aquele que a natureza usa para nos lembrar que nem tudo está sob nosso controle.
E sabe o que é interessante? Quando uma árvore cai naturalmente, você não recebe multa da prefeitura, recebe uma oportunidade de arrumar outras maneiras de seguir com aquela árvore.
Porque antes desse flamboyant cair, eu tinha cortado duas outras árvores de pau-ferro, que ficavam perto da piscina. A sujeira que faziam era incômoda, mas a prefeitura não achou graça e multou-me por ter cortado mais da metade do tronco principal. E estavam certos em aplicar essa multa. Estou na Serra do Mar, onde a vegetação é protegida. Reconheço que cometi um erro e paguei a penalidade sem reclamar.
Mas com esse flamboyant que caiu naturalmente resolvi criar um novo cenário para ele, dar uma segunda chance. Afinal, quando você tem quase 88 anos e uma árvore cai na sua propriedade, você não pensa em desperdício, mas vislumbra novas oportunidades. E foi o que fiz.
A madeira que caiu vai virar lenha. Mas não agora. Madeira verde não queima bem. Então ela vai secar por um ou dois anos, pacientemente, esperando o momento certo. Porque nem tudo na vida é urgente. Algumas coisas precisam de tempo.
A outra metade da árvore – a que ainda está de pé – essa vai ser cortada e transformada em dois bancos de tronco. E aqui está a parte que me fez sorrir: esses dois bancos vão ficar ao longo da rampa que leva até minha casa.
A rampa e seus degraus de pedra
Quando comprei essa propriedade há mais de 30 anos, eu tinha 50 anos e a rampa de pedras grandes e irregulares não era problema. Eu subia correndo, descia pulando. A idade era apenas um número que eu ignorava.
Hoje a idade cobra seu preço, mas não entrego os pontos porque a criatividade não envelhece.
Aquela subida que antes era nada agora se impõe. As pernas cansam, o coração se agita, os joelhos reclamam. E tem aquele momento, (todo mundo que envelhece conhece), em que você pensa: “Será que vou conseguir subir isso?”
Mas aí eu tive uma ideia: “E se eu transformasse isso em dois pontos de descanso?”
Dois bancos de tronco. Um no começo da rampa para descanso da caminhada, outro no meio da rampa. Dois lugares para respirar e reunir forças para o trecho final e depois a entrada triunfal em casa e quem sabe dar um mergulho na piscina.
Porque reconhecer seus limites não é fraqueza, mas sim motivação para criar soluções para continuar fazendo o que você ama, ativar a criatividade.
A natureza como confidente
Tem uma coisa que aprendi ao longo de quase 88 anos cercado de árvores: elas são boas ouvintes.
As árvores não contestam, não julgam e em hipótese alguma revelam seus segredos. Você pode se sentar embaixo de uma árvore e contar tudo, seus medos, suas alegrias, seus arrependimentos e ela apenas escuta.
Quando eu era criança, meu pai e um jardineiro italiano chamado Giacomo plantaram videiras na chácara da família. Nós amassávamos as uvas com os pés descalços em um tonel grande, tentando fazer vinho. O vinho nunca foi bom, era mais um experimento do seu Ziro Ramenzoni do que uma bebida de verdade, mas aquelas videiras eram confidentes silenciosas de todos que passavam por ali.
Hoje, quando subo a rampa da minha casa de campo, eu passo por um pinheiro que bifurcou no alto. É fascinante observá-lo, porque ele é único, nunca vi outro igual. E toda vez que o vejo, eu me sento um pouco e converso com ele. Não em voz alta, mas converso.
No tempo da Fazenda Alvorada eu curtia as “primaveras”, aquelas bougainvilles com cores vibrantes que enchiam o espaço de um colorido cheio de vida. Na fase das casas de praia em Itanhaém e Riviera de São Lourenço gostava de conversar com os “guarda-sóis”, planta típica do litoral daquela região.
Sim, cada árvore, cada planta é um arquivo vivo de memórias.
A idade e a criatividade
Aqui está uma descoberta incrível que venho fazendo com o passar dos anos: você não para de fazer as coisas que ama, apenas encontra novas formas de fazê-las.
Eu pratico Pilates. Não porque seja fácil, mas porque percebo que é necessário. Quero viver até os 120 anos e você não chega lá sentado no sofá.
Mas você também precisa ser inteligente e reconhecer que a rampa que você subia em cinco minutos agora leva dez. E em vez de ficar frustrado com isso, você coloca dois bancos de tronco e transforma aquela dificuldade em uma oportunidade de respirar, de olhar para trás, de apreciar o caminho.
Porque a natureza nos mostra a todo momento que tudo muda. As estações mudam. As árvores crescem e caem. Os corpos envelhecem. Mas a vida continua e se você for criativo o suficiente, a vida continua sendo cada vez mais bonita de ser vivida.