Tempo de leitura: 6 minutos

Tenho passado mais tempo em casa fazendo companhia para minha amada Cidinha e nos momentos em que ela está ocupada, eu tenho feito algo que me diverte muito: reler meus próprios escritos.
Estou relendo desde as postagens do blog de 2018 até 2025, como também minha autobiografia. Sabe aquele hábito um pouco narcisista de você se reler e ficar surpreso com o que você mesmo escreveu? Pois é. Tenho feito exatamente isso.
E descobri algo que me agradou profundamente: meu modo de pensar não mudou. Revendo minhas histórias, meus posicionamentos, as coisas que vivi, as decisões tomadas, cheguei à conclusão de que não mudaria as minhas opiniões, nem a forma como agi nas situações mais delicadas e isso, para uma pessoa de 87 anos que olha para trás, é uma sensação de integridade que não tem preço.
Significa que eu continuo sendo eu. Que meus valores não são moda de estação. Que quando paro para pensar bem antes de falar sobre mim ou sobre alguém, o resultado é algo que aguenta o tempo.
A postagem que voltou
Na semana passada me deparei com um texto que escrevi no blog em 12 de novembro de 2021, onde eu falava sobre parceria de casal, sobre a essência da companhia e do cuidado mútuo no casamento.
Cinco anos depois, relendo aquelas palavras, percebi que tudo que eu havia escrito naquela época não apenas permanece verdadeiro, mas ganhou ainda mais peso. Porque cada vez mais estou vivendo diariamente o que escrevi naquele momento de pandemia.
Uma companheira com C maiúsculo
Minha dedicação à Cidinha não é obrigação. Preciso deixar isso bem claro. Obrigação é algo que você faz porque tem que fazer. O relacionamento que construímos é diferente, um “querer cuidar” sincero, um amor legítimo e muito sentido. Eu diria até que é um privilégio.
Cidinha é uma mulher especial. Sim, ocasionalmente fica um pouco estressada, mas debaixo daquela braveza está um amor imenso e não tem como não reconhecer que ter alguém para compartilhar a vida, para conversar, para oferecer colo em todos os momentos, isso é tudo que importa para viver bem e nutrir a longevidade.
Quando estou doente, Cidinha fica ao meu lado e não abre mão disso por nada desse mundo. Agora se é ela que está mal, me manda para casa para descansar, preocupada com a minha idade. Os métodos são diferentes, mas o cuidado é o mesmo e o amor também.
O “mimo” dos pijamas
Deixa eu contar uma cena que resume bem o que estou contando para vocês: dias atrás, Cidinha comprou três ou quatro pijamas novos e me trouxe de presente. A primeira vez que usei um deles, ela me olhou com aquele brilho nos olhos que só ela tem e disse que eu estava elegante, que poderia usar antes de jantar. Algo tão simples, mas tão carinhoso.
Vocês não imaginam como ela ficou feliz em ver que o pijama que ela tinha escolhido com tanto afeto estava sendo usado e apreciado. E eu compreendi: isso é cuidado, valorizar os pequenos detalhes é algo de muita relevância para manter um relacionamento duradouro.
Porque num casamento, independente da idade do casal, a gente precisa se arrumar para a pessoa. Sim! Manter as unhas bonitas, o cabelo arrumado, estar cheiroso, pois isso é um sinal de que você continua valorizando aquela pessoa, tentando deixá-la feliz.
Sabe naqueles primeiros encontros quando você se arrumava por horas para poder impressionar? Pois é. A gente precisa manter aquele entusiasmo na passagem do tempo, no ir e vir do dia a dia.
O tempo conta a história
Enquanto vou relendo os meus escritos, compreendo cada vez melhor que o tempo conta a história e revela quem você realmente é. Observar a vida das pessoas, como elas estão, onde chegaram, quem está ao redor delas, isso mostra a verdade.
Outra observação que vale a pena compartilhar com vocês é que falta de gentileza e de atenção pode abreviar muitos relacionamentos. Se pararmos para pensar, todos os relacionamentos são como uma planta, o que significa que precisam ser regados e alimentados constantemente, pois se forem esquecidos, eles secam. E depois não tem volta, deixam de existir.
O porto seguro
Ter alguém para cuidar e com quem compartilhar a vida é fundamentalmente diferente de ter alguém que seja escalado(a) para cuidar apenas por obrigação.
Companheiros de verdade escolhem se cuidar. Escolhem seguir a vida juntos, conversar, trocar ideias, viajar, fazer as refeições, porque esses são os momentos que fazem a gente viver com vontade de viver as próximas cenas que o destino nos reserva.
E sim, eu já conversei com meus filhos, pedi que cuidem dela quando eu não estiver mais aqui. Porque ela merece estar cercada de cuidado, de atenção, de amor. Como ela me cerca.
Dois pilares
Quando eu comecei a reler meus próprios escritos e vi quem eu sou, o que eu penso, como eu ajo, tudo isso sem mudança, sem arrependimento, eu encontrei uma paz indescritível. E quando eu vejo Cidinha feliz ao meu lado, conversando animada antes do jantar enquanto eu uso o pijama que ela me presenteou, confirmo que essa paz é real.
Existem dois pilares que considero essenciais para uma vida plena e longa: o primeiro é ter coerência entre pensamento, palavra e ação. Ser genuíno na defesa das nossas convicções. Isso constrói integridade pessoal que nenhuma tempestade abala.
O segundo é ter um relacionamento construído à base de amor genuíno, cuidado mútuo e apoio incondicional. O tipo de amor que escolhe ficar, que se arruma para a pessoa, que rega a planta todo dia.
Então aqui vai a reflexão do dia: quando você pensa nas cenas da sua própria história, encontra alguém que gosta de ser? Ou encontra alguém que não reconhece, que mudou tanto que parece ser outra pessoa?
Porque a verdade é que a gente passa a vida inteira tentando ser quem os outros esperam que a gente seja. Pais. Patrões. Sociedade. Tudo querendo um pedaço de você.
Mas se no final você descobrir que você continua sendo você, que o que você acreditava aos 30 continua fazendo sentido na sua idade atual, bem, isso meus amigos, é graça.
E quando você tem alguém para compartilhar essa graça, alguém que escolhe estar ao seu lado independente das circunstâncias, aí você achou o porto seguro.