Persistir em vez de desistir

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Três anos para planejar uma nova máquina, buscar soluções, realizar testes, corrigir erros, alinhar expectativas, criar planos de ação. Três anos de persistência pura.

E sabe o que é engraçado? Meus avós enfrentaram algo parecido. Eles tinham uma fábrica de chapéus que virou obsoleta porque as pessoas pararam de usar chapéu. Imagina só. Você investe tudo em chapéus e aí a moda muda. A história muda. O mundo muda.

Mas eles não desistiram. Eles olharam para aquela fábrica vazia e pensaram: “E agora?” E a resposta foi simples: “Agora a gente faz outra coisa.” Porque persistência não é teimosia, é você olhar para que já foi realizado e dizer “próxima reinvenção”.

Meu avô e tio avô paternos eram imigrantes italianos. Vieram para o Brasil no século XIX, quando imigração era sinônimo de “você está apostando sua vida em algo que você não sabe se vai dar certo”. Não havia garantias, nem plano B. Havia apenas vontade e desespero, aquele desespero bom, que te força a agir.

Eles fundaram a fábrica de chapéus Ramenzoni acreditando que conseguiriam e conseguiram, por um bom tempo.

Depois a moda mudou, os chapéus saíram de uso e aqui vem a parte que me marca: em vez de chorar sobre o leite derramado, meu pai e meu tio, a segunda geração, olharam para aquela estrutura, aquele conhecimento de fabricação, aquela disciplina de trabalho, e pensaram: “E se a gente fizesse também confecções masculinas?” E criaram a BanTan.

Não era chapéu, mas era tecido. Era máquina, conhecimento e reinvenção. E funcionou, até que o mercado mais uma vez mudou, porque o mercado sempre muda.

E eles optaram por seguir investindo na fabricação de papel cartão para embalagens, apostando principalmente em uma linha de papeis reciclados.

Aí chegou minha geração. Primeiramente eu com os meus irmãos e depois com uma equipe profissionalizada escolhida por mim, e nós abraçamos aquela herança de reinvenção, seguimos na mesma trilha produzindo uma linha cada vez mais diversificada de papéis para embalagens, depois papéis impermeabilizados para alimentos. Papéis que protegem o que as pessoas consomem.”

Três gerações, três produtos completamente diferentes, mas com uma coisa em comum: a recusa de desistir quando as coisas ficam difíceis.

Wilfred Grenfell e a persistência que salva vidas

Tem um médico inglês que eu admiro muito, Wilfred Grenfell. Ele foi para o norte do Canadá no final do século XIX para atender pescadores que viviam em colônias isoladas e nunca tinham visto um médico na vida.

E Grenfell chegou lá e disse: “Eu vou cuidar de vocês.” Imagina a cena. Um inglês de terno em meio a pescadores canadenses que vivem em cabanas, que nunca viram medicina moderna, que desconfiam de tudo que vem de fora. E Grenfell persistiu, construiu hospitais, treinou pessoas locais e criou um sistema de saúde onde não havia nada.

Porque Grenfell entendeu algo que meus avós também entenderam: o verdadeiro heroísmo não é fazer algo uma vez, mas fazer algo quando tudo parece perdido. É persistir por mais um momento quando você quer desistir.

Grenfell tinha uma frase que ilustra bem isso que estou contando para vocês: “o verdadeiro heroísmo consiste em persistir por mais um momento quando tudo parece perdido.”

E é exatamente isso que meu avô, meu tio avô, meu pai e meu tio fizeram e eu sigo o legado deixado por eles.

A máquina que levou três anos

Quando a gente começou esse projeto, queríamos criar papéis com novas aplicabilidades. Papéis impermeabilizados para congelados e embalagens de delivery que fizessem sentido para um mundo em constante transformação.

E sabe o que aconteceu? A máquina funcionou e agora a gente produz papéis que antes não conseguia produzir e que vão fazer a diferença no mercado.

Isso é não é sorte, é persistência. Porque sorte é você estar no lugar certo na hora certa, mas persistência é você estar no lugar certo, na hora errada, e ficar lá até que a hora fique certa.

Tem uma coisa que aprendi acompanhando de perto a história da minha família: tudo tem um ciclo. Os chapéus tiveram seu ciclo. As confecções tiveram seu ciclo. Os papéis têm seu ciclo. E quando um ciclo termina, você não morre. Você se reinventa.

Porque persistência não é agarrar-se ao passado, mas soltá-lo e abraçar o futuro, investindo no presente. E quando eu olho para trás eu vejo um padrão, que não é um padrão de sucesso fácil, mas um padrão de pessoas que entenderam que o mundo muda, que os mercados mudam, que as tecnologias mudam, e que a única coisa que não muda é a necessidade de persistir.

Então fica essa reflexão da vez: qual é o projeto que você quer desistir, mas que sabe que deveria continuar? Quem sabe depois dessa leitura, você siga em frente.

Porque a verdade é que ninguém nasce sabendo persistir, a gente aprende. E quando finalmente conseguimos, não há adjetivo que possa qualificar essa sensação de ter chegado onde parecia impossível só de pensar.

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