O teste que meu pai só me contou anos depois

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Eu tinha 28 anos e ganhava abaixo do mercado na fábrica de chapéus do meu pai. Sabia disso porque meu tio Alberto Rubic, que eu respeitava profundamente pela experiência de vida e era casado com tia Leonora, irmã mais velha da minha mãe, me disse: “você precisa pedir um aumento; está ganhando menos do que vale!”

Fui ao meu pai, cheio de coragem e disse que sabia quanto o mercado pagava e que a concorrência, no caso a Prada, pagaria mais. Foi uma conversa dura, ele me olhou, pensou e concedeu o aumento.

Anos depois, ele me revelou que aquilo foi um teste. Ele queria ver se eu tinha proatividade, determinação para lutar pelo que eu valia. E eu passei.

Mas aqui vai uma confissão só para vocês: eu não fui ao meu pai apenas com coragem, mas acompanhado de um companheiro fiel: o conhecimento. Busquei conselho de alguém mais experiente, pesquisei o mercado e descobri os números antes de abrir a boca. Meu pai não me testou para ver se eu era corajoso, mas para ver se eu estava aprendendo.

Tenho muito carinho por essa cena da minha vida porque me revelou que ninguém sabe tudo e que a maior ousadia que existe não é falar alto ou tomar decisão radical. É admitir que você não sabe e buscar quem sabe.

Quando eu era jovem, era tímido e às vezes tinha vergonha de perguntar. Pensava que admitir ignorância era fraqueza, mas aí a vida me ensinou que é exatamente o oposto: buscar pessoas mais experientes é zelar pelo sucesso do que queremos colocar de pé.

O tio que me aconselhou sobre o salário poderia ter ficado calado, eu poderia não ter perguntado e continuaria ganhando abaixo do mercado, achando que estava tudo bem.

A diferença entre estagnar e crescer quase sempre está em uma pergunta que você tem coragem de fazer.

A convenção que mudou tudo

Alguns anos depois, entre 1960 e 1965, eu fui a uma convenção internacional de fabricantes de chapéus e o que eu vi ali me deu um frio na espinha: as vendas de chapéus estavam caindo no mundo inteiro. Não era um problema brasileiro, mas sim global.

Voltei para o Brasil, fui direto conversar com o meu pai e o tio Ibsen e falei: “a indústria de chapéus está morrendo, precisamos fazer algo diferente.”

A solução que propus era quase absurda: uma joint venture com a concorrente Prada. Imagine a cena: eu, um jovem, sugerindo parceria com o concorrente direto. Mas por outro lado, tinha visto os dados, absorvido a informação que estava disponível para todos naquela convenção e precisava transformar aquela informação em ação.

Demorou um ano para convencer o patriarca da Prada, Sr. Agostinho Prada, um italiano de 85 anos que já tinha visto de tudo na vida. Um ano de conversas, de propostas, de paciência até a parceria acontecer, mas foi um sucesso. Regularizou a produção, evitou o fechamento da fábrica e provou algo que segue comigo: aprender é inútil se você não aplica.

Vender para comprar o futuro

Tempos depois, enfrentei outro desafio, uma fazenda que a família havia herdado acumulava dívidas excessivas. Os irmãos estavam divididos sobre o que fazer; deveríamos manter ou vender?

Eu estudei a situação, analisei os números e convenci meus irmãos a vender. A venda se consolidou pelo dobro do valor avaliado  e com aquele dinheiro, realizamos novos empreendimentos que fizeram diferença nas nossas vidas.

Meus avós reinventaram a fábrica de chapéus em confecções. Meus pais reinventaram as confecções em papéis, portanto, eu estava apenas honrando a herança: quando algo não funciona mais, você transforma.

A aposta nos 120 anos

Hoje tenho 87 anos, algumas cirurgias pelo caminho, às vezes sinto cansaço ocasional, mas o raciocínio está firme e a vontade está ativa.

Minha meta pessoal é viver até os 120 anos e não é por teimosia, e sim porque ainda tenho muito a aprender.

Planejo realizar novas aquisições na fábrica, continuar envolvido nos negócios. Ao mesmo tempo, também quero passar tempo com a família, os amigos e manter uma rotina ativa. Porque para mim, essas coisas são nutrientes. São o que mantém a mente viva, o corpo em movimento e a curiosidade acesa.

Quem para de aprender, começa a morrer, portanto a meta não é viver até os 120, é ter 32 anos a mais para aprender coisas novas.

Cada decisão é um teste

Meu pai me testou aos 28 com o aumento salarial. A vida me testou aos 30 e poucos com a convenção internacional e a joint venture com a Prada. E seguiu me testando em tantas outras ocasiões, que me sinto motivado a seguir com a meta de viver até os 120 anos.

Cada teste me traz a mesma provocação: aprenda antes, aja depois.

Então pense comigo, qual é o teste que a vida está colocando diante de você agora? E mais importante: você está aprendendo antes de agir?

Porque a verdade é que ninguém nasce sabendo ou chega pronto ao mundo. O que diferencia quem prospera de quem estagna não é talento, sorte, circunstância, mas a disposição de admitir que não sabe e a humildade de buscar quem sabe.

Meu pai me testou e eu passei.  A vida continua me testando e eu sigo estudando. Porque com a meta de chegar aos 120, sei que o maior teste ainda está por vir e pretendo passar com nota máxima.

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