As coisas mudam!

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Três palavras. Menos do que eu gasto para pedir um café.

Eu estava caçando inspiração para este texto na Internet, quando me deparei com uma frase de Stephen Chbosky: “a vida muda!” e meus dedos pararam de rolar a tela.

Fiquei um bom tempo olhando para essa frase minúscula, sem adjetivo, sem complemento, sem rodapé explicativo. Depois descobri quem era o autor: o americano que escreveu “As vantagens de ser invisível”, aquele livro de cartas de um adolescente que virou filme. E aí veio a melhor parte: a frase completa dele é ainda mais forte.

“As coisas mudam. E os amigos partem. E a vida não espera por ninguém.”

Um jovem escritor colocou em uma linha o que levamos a vida inteira para aprender e é sobre isso que quero falar hoje.

Como vocês já sabem, meu pai me mandou estudar nos Estados Unidos para gerenciar uma fábrica de chapéus. Formei-me, voltei, e imaginei que passaria a vida inteira fazendo chapéus.

A vida mudou. Precisei aprender a fabricar papel, que virou o sustento da minha família até hoje. E sim, hoje fazemos o papel cartão de maior qualidade do mercado nacional e internacional.

Aí a vida mudou de novo. E no meio do caminho também virei fazendeiro, criador de gado Guzerá.

Se alguém tivesse me dito aos vinte anos que eu seria, nessa ordem, gestor de indústria de chapéu, industrial de papel e criador de boi Guzerá, eu teria pedido para checar o que essa pessoa estava bebendo, mas foi exatamente isso que aconteceu. Três vidas diferentes dentro de uma vida só e eu não devolvo nenhuma delas por dinheiro nenhum desse mundo.

Quem tem filhos sabe: a gente planeja e eles improvisam.

A família que não segue manual

Eu me lembro de olhar para aqueles três meninos e imaginar que cresceriam parecidos, seguindo as trilhas que a gente sonhava. Cada um seguiu a vida do seu jeito, com uma personalidade que não combinava nem com a do irmão, nem com a nossa, nem com o manual de instruções que a gente achou que tinha entregado junto com o enxoval.

E olha, eu agradeço. Uniforme é farda, não é família. Os meus se tornaram independentes, desenvolveram personalidades distintas e me desafiaram a acompanhar. A vida mudou dentro da minha própria casa, todos os dias, sem pedir licença.

Agora deixa eu contar minha trajetória de moradia, porque ela merece um capítulo à parte. Comecei a vida numa casa enorme, que pertenceu ao meu avô e depois passou para meus pais. Espaço de sobra e corredor para correr.

Quando me casei, mudei para um apartamento pequeno. Do castelo para o estúdio, mas era nosso, e a alegria compensava a falta de metros quadrados.

A família cresceu, os filhos chegaram e veio a necessidade de mais espaço e a vontade de ter cães. Mudamos para uma casa mais afastada, com espaço para todo mundo, inclusive para os quatro patas.

Depois, voltamos aos apartamentos, só que maiores e quando os filhos saíram de casa e a vida ficou a dois de novo, adivinha? Voltei para uma casa grande. De três andares.

A vida tem um senso de humor apurado. Ela me devolveu, na velhice, as casas grandes da minha infância. Dei a volta completa no tabuleiro e caí na casa em que comecei. Só que agora, com a sabedoria de quem sabe o valor de cada metro quadrado.

Os amigos partem

Aqui a frase do Chbosky aperta o peito. Porque ele não disse só que a vida muda. Ele disse que os amigos partem. Aconteceu isso com o meu amigo Zequinha. Marquei um jantar com ele para matar a saudade. A agenda teimou, os compromissos teimaram, e o jantar quase foi postergado, mas insisti e aconteceu.

Notei que naquela noite, o Zequinha estava diferente. Um comportamento atípico, um tom que eu não conhecia. Eu percebi algo, mas não soube ler. Os sinais nem sempre vêm com legenda. Dois meses depois, ele partiu.

Fico pensando no que teria acontecido se tivéssemos adiado aquele jantar. Eu teria ficado com a saudade sem endereço, com o abraço que nunca aconteceu. Em vez disso, fiquei com a memória daquela mesa, da conversa, do último encontro que quase não aconteceu.

Os amigos partem e a vida não espera por ninguém. O jantar que você adia pode ser o último, a visita que fica para o mês que vem pode ficar sem mês que vem. Por isso eu não deixo encontros para depois. Nunca deixei e agora, menos ainda.

A Harley, o braço e a realidade

Minha paixão por motocicletas também passou por suas revoluções. Comecei nas motos pequenas. Depois, quando a vida me permitiu, veio a grande: uma Harley-Davidson. Aquela máquina linda, que roncava como trovão e pesava como armário de aço. Eu, a Harley e o mundo ao redor.

Aí o tempo fez o que o tempo faz. A força física diminuiu, o braço começou a dar seu parecer em cada manobra, e eu tive que ouvir: chefe, a gente precisa conversar.

E conversamos. Hoje tenho motos mais leves, cada uma para um uso e descobri algo que vale registrar: aceitar a realidade pode ser uma grande conquista. Troquei o peso pelo prazer de continuar pilotando e vou continuar por muito mais tempo justamente porque aceitei mudar.

Quem se agarra à Harley depois dos 80 pode acabar sem moto nenhuma. Quem troca com inteligência, segue na estrada.

O rio nunca é o mesmo

Um grego chamado Heráclito já dizia que ninguém se banha duas vezes no mesmo rio: o rio nunca é o mesmo, e você nunca é a mesma pessoa ao retornar.

Eu gosto dessa imagem porque ela desmonta a ilusão de que existe uma vida parada para a qual a gente pode voltar. Não existe. A casa do meu avô não é mais a casa do meu avô. A fábrica de chapéus não é mais a fábrica de chapéus. E o rapaz que voltou dos Estados Unidos para gerenciar a Ramenzoni Chapéus não é o homem que escreve esta postagem.

A mudança está presente desde o nascimento até a morte e a única coisa que não muda? O fato de que tudo muda.

E na mesma caçada pela internet em que encontrei o Chbosky, tropecei em outra frase que também me parou: “A mudança é a lei da vida.” Quando fui ver de quem era, ri sozinho. Kennedy. De novo ele.

Semana passada eu critiquei aqui o carro aberto dele. Hoje eu venho aplaudir a frase que ele deixou, completa: “A mudança é a lei da vida. E aqueles que olham apenas para o passado ou para o presente certamente perderão o futuro.”

É assim que funciona a amizade intelectual: critica-se o que precisa ser criticado e aplaude-se o que merece aplauso. Com Kennedy, as duas coisas cabem na mesma postagem.

Tem uma ironia deliciosa nessa história toda. O Chbosky escreveu sua frase na voz de um adolescente. Eu a estou comentando aos quase noventa anos.

E a frase funciona igual nos dois extremos, porque o adolescente descobre que as coisas mudam e se desespera. O velho descobre que as coisas mudam e se alivia. Mesma verdade, leituras diferentes. A diferença entre os dois não é a frase, mas o tempo que cada um teve para digeri-la.

O adolescente ainda vai aprender que os amigos partem. Eu já aprendi. E aprendi também a parte que o Chbosky não escreveu, mas que ele saberá um dia, se a vida lhe der os anos que me deu: os amigos partem, mas a vida continua. E ela continua bonita, se você deixar.

Então quero deixar mais uma reflexão para vocês: tem mudança que a gente lê no jornal, vê na TV, nas redes sociais E tem mudança que acontece na nossa cozinha, no nosso corpo, na nossa mesa de jantar. As duas existem, mas só uma delas a gente pode abraçar de verdade, com as próprias mãos.

A pergunta não é se a vida vai mudar. Ela vai! Está mudando agora, enquanto você lê esta postagem. A pergunta é: quando ela mudar, você vai brigar com o novo ou vai pedir para ele se sentar à mesa? Eu confesso que já briguei. Aprendi. Hoje me sento à mesa, sirvo o café e pergunto: e aí, o que mudou?

Porque a resposta, sempre, é a mesma: tudo. E está tudo bem.

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