Tempo de leitura: 7 minutos

Mais um Natal, mais um natalício. E aqui estou eu, aos 87 anos, pensando sobre o que realmente quero deixar de legado nesta existência.
Não é a fábrica. Não são as máquinas que aumentei de 150 para 300 toneladas. Não é a fazenda onde transformei a criação de gado Guzerá no Brasil. Não são os carros, as motos, os imóveis. É gente. As pessoas que cultivei ao longo dessa vida toda.
Os chineses têm um provérbio que aprecio e concordo: “Deseja um ano de prosperidade? Plante grãos. 10 anos? Cultive árvores. 100 anos? Cultive gente.” E foi exatamente isso que fiz, desde que me entendo por gente.
Plantei muitos grãos na vida. Aqueles resultados imediatos que você precisa para sobreviver, para pagar as contas no fim do mês, para manter as portas abertas. Todo negócio precisa de grãos.
Também cultivei árvores. Na fábrica de papel, literalmente plantamos eucaliptos por anos seguidos, até percebermos que era mais econômico comprar de quem fazia isso por profissão. Aprendi que até as árvores precisam de reinvenção. Mudamos de lenha para óleo, de óleo para gás, sempre buscando o que mantinha o negócio rentável.
Mas o cultivo que mais importa, aquele que atravessa gerações, é o de pessoas. Sozinho, você não faz absolutamente nada. Todo serviço da humanidade é complicado. Você precisa de outras pessoas para trocar ideias, para ajudar, para continuar quando você não estiver mais lá.
O começo do cultivo
Comecei cedo. No jardim de infância, na escola, no ensino médio, na faculdade. Fiz amigos em todos os lugares por onde passei. Alguns estão comigo há mais de 75 anos. Mas foi quando assumi responsabilidades maiores que entendi o verdadeiro significado de cultivar gente.
Na faculdade, eu gerenciava o relacionamento com 20, 30 pessoas. Achava que sabia liderar. Até assumir a fábrica do meu pai e me deparar com mais de 1.500 funcionários. Como você conversa com tantas pessoas? Como você cultiva cada uma delas?
Criei um sistema de administração com gerentes, subgerentes, diretores. Mas a chave não era só a estrutura hierárquica. Era o contato direto. Era conversar com elas, fazer-me querer bem, transmitir confiança.
Cultivar gente é isso: você se faz querer bem, você fala de forma que as pessoas acreditem em você, você cultiva a confiança, a confiabilidade que você exprime, que você expira, que você transpira. E quando você faz isso bem, outros copiam e têm sucesso também.
A mudança de chapéu para papel, a criação de gado e a escrita dos meus pensamentos sobre a vida
Quando mudamos da produção de chapéus para papel, tive que aprender tudo de novo. Busquei conhecimento através de correspondência internacional, fiz cursos, estudei. Mas o mais importante? Cultivei as pessoas que sabiam fazer papel. Engenheiros que acreditaram quando eu disse que poderíamos dar upgrade em equipamentos. Técnicos que toparam experimentar quando os fabricantes disseram que era impossível.
Profissionalizei a gestão quando se fez necessário. Contratei novos líderes e passei anos transferindo meu conhecimento. Não foi fácil me afastar, mas era prioritário naquele momento. Porque cultivar gente também significa saber quando passar o bastão.
E foi a partir dessa decisão que realizei um antigo sonho: ter uma fazenda de gado bovino. Foram doze anos dedicados à raça Guzerá. Apliquei os mesmos princípios de cultivo de pessoas, mesmo com uma equipe menor e com conhecimentos diferentes da turma que estava acostumado a liderar. Meu papel era estar mais presente. Eu combinava minha teoria com a prática deles. Caminhava ao lado, ensinava, aprendia também.
E sabe o que aconteceu? Elevamos a raça Guzerá de mediana a grande no Brasil. Hoje, no setor pecuário, as pessoas falam de a.D.R. e d.D.R. – antes de Dante Ramenzoni e depois de Dante Ramenzoni. Não digo isso para me gabar. Digo por que foi o resultado direto de cultivar as pessoas certas, da maneira certa, pelo tempo necessário.
Também fui um dos primeiros a fazer leilões de gado pela televisão, oferecendo conforto aos meus clientes. Era um precursor dos leilões virtuais que dominam hoje. Sempre pensando em como facilitar a vida das pessoas.
Hoje, continuo cultivando gente. Mas de uma forma que nunca imaginei: através de um blog. Sabem aquela máxima antiga de que “um homem precisa se levantar, tirar o pijama e sair para a rua”? Pois é. Não consigo ficar em casa sem fazer nada.
Então comecei a compartilhar meus pensamentos, minhas filosofias, minhas histórias. E fiquei surpreso com a repercussão. As pessoas comentam que descobriram um “lado filósofo” do industrial que conheciam e aqueles que não conheço, mas me acompanham virtualmente, aprecio os comentários e procuro escrever sobre temas relevantes. É uma nova forma de cultivar pessoas. E é tão gratificante quanto as anteriores.
O legado que quero deixar
Não serão as máquinas, as fazendas, os negócios. Esses passam, transformam-se, às vezes desaparecem. O que vai ficar são as pessoas que cultivei. Os valores que transmiti. As amizades que construí. Os funcionários que se tornaram líderes. Os filhos que se tornaram empresários e amigos. Os leitores que talvez apliquem alguma dessas reflexões em suas próprias vidas.
Esse é o cultivo que atravessa 100 anos. Ou mais.
Então, neste próximo ano, meu convite para cada um de vocês é simples: pense sobre o que está cultivando na sua vida…
Está plantando apenas grãos, preocupado só com o resultado do próximo mês?
Cultivando árvores, pensando nos próximos 10 anos de sustentabilidade? Ou está cultivando gente, construindo um legado que vai durar muito além de você?
Não precisa gerenciar 1.500 pessoas para começar. Comece com sua família. Com seus amigos. Com seus colegas de trabalho. Com as pessoas que cruzam seu caminho todos os dias.
Faça-se querer bem. Transmita confiança. Seja alguém em quem os outros possam se inspirar. Dê espaço para que cada um floresça do seu jeito.
Porque no final, quando chegar a hora de fazer o balanço da vida, a única pergunta que realmente importa é: quantas pessoas você cultivou? Quantas vidas você tocou? Quantos corações você ajudou a crescer?
Grãos alimentam por uma estação. Árvores protegem por décadas. Mas pessoas perpetuam valores por séculos.
Neste final de mais um ano, olho para trás e vejo uma vida inteira de cultivo. Desde os amigos de infância que ainda me acompanham, passando pelas centenas de funcionários que ajudei a liderar, pelos engenheiros que acreditaram no impossível, pelos empregados da fazenda que mudaram a criação de gado no Brasil, até vocês, leitores que me permitem continuar cultivando através destas palavras.
Cada pessoa que cruzou meu caminho foi uma semente plantada. Algumas floresceram rapidamente, outras levaram décadas, algumas ainda estão germinando. Mas todas fazem parte do jardim da minha vida.
E se há algo que quero deixar como última mensagem deste ano é isto: invista em pessoas. Não porque dá retorno financeiro, embora também dê. Não porque é estratégico, embora seja. Mas porque é a única coisa que realmente fica quando partimos.
Seu legado não é medido em toneladas de papel, em cabeças de gado, em máquinas ou imóveis. Seu legado é medido em quantas pessoas você ajudou a se tornarem a melhor versão delas mesmas.
Boas Festas para todos vocês. Que 2026 seja o ano em que você plante muitos grãos, cultive belas árvores, mas principalmente, que seja o ano em que você comece a cultivar as pessoas que vão perpetuar o melhor de você por gerações. Porque no final, como dizem os chineses, se você quer prosperar por 100 anos, cultive gente.
E que vida vale a pena se não for compartilhada, se não for multiplicada através daqueles que tocamos?
Até 2026!