Zona de conforto? Não caia nessa!

Tempo de leitura: 7 minutos

Sinto-me bem confortável para falar sobre o tema desse artigo, embora não saiba até hoje, quase aos oitenta anos, qual o caminho que leva na direção dessa tal zona de conforto, nem com a ajuda do GPS.

Desde criança, a minha vida sempre foi muito “puxada” porque o meu pai era muito rígido, então eu e meus irmãos aprendemos desde muito jovens que tínhamos que acordar e dormir cedo.

E quando eu digo acordar cedo, era cedo mesmo!

Seis e meia da manhã, seu Ziro entrava no quarto, abria as cortinas, dizia que a temperatura estava “x” graus, ligava a vitrola e colocava um disco para termos aulas de inglês e francês, já que italiano e português fazia parte de nosso cotidiano.

Nós gostávamos tanto dessa alvorada, que preferíamos levantar logo a ter que ficar escutando “the book is on the table” ou “le crayon est sur la table! (Só que ele sempre conseguia que a gente ficasse ali ouvindo aquela coisa chatinha por pelo menos quinze minutos, todos os dias, pois era o tempo de acordar, virar para o lado, se espreguiçar…)

Depois do café, seguíamos para a escola, em regime semi-internato, onde almoçávamos e tínhamos inúmeras atividades extracurriculares.

Outra coisa curiosa que vale registrar aqui é que até os sete anos de idade, nós íamos para a escola com o motorista, mas daí pra frente tínhamos que fazer o percurso de bonde, seguido de um pequeno trecho a pé. (Nas primeiras vezes ele mandava um funcionário dele nos acompanhar até estarmos seguros no percurso e depois ficava por nossa conta.)

Mais crescidos, íamos de bicicleta, o que dava a maior sensação de liberdade!

Como já falei, meu pai era bem rígido (tínhamos que mostrar os boletins da escola todos os meses), mas também era liberal quando o assunto era esporte, exercício, aventura, busca de novos conhecimentos.

Por que meu pai fazia isso?

Principalmente para termos disciplina e disciplina, na visão dele, seria adquirida através da criação do hábito para realizar uma determinada ação, tarefa.

(Tanto que o hábito de acordar cedo me acompanhou a vida inteira!)

Essa simples rotina imposta pelo meu pai já excluiu automaticamente a possibilidade de entrar na zona de conforto por muitos anos da minha infância/adolescência. Pelo contrário, minha vida sempre foi bem atribulada.

Depois, eu fui estudar nos Estados Unidos e continuei passando muito longe da zona de conforto, simplesmente porque não tinha ninguém que me ajudasse. Eu precisava cuidar de tudo: pagar escola, organizar as minhas coisas, arrumar as roupas, cuidar do carro, ligar para a minha mãe, escrever cartas para o meu pai em italiano, estudar, prestar atenção nas gatinhas!

De volta ao Brasil, fui morar com os meus pais e aí já não me acostumei mais a ter que dar satisfações e tratei de me organizar logo para montar a minha casa, ser dono do meu nariz. (Se dependesse da minha mãe, eu teria ficado pra sempre na casa dela, mimado, com tudo à minha disposição, mas eu optei por me casar, constituir a minha família e assumir meu papel na empresa, afinal, havia me preparado tanto nos estudos para isso.)

Vida calma, sem nenhuma turbulência nunca fez parte da minha trajetória. Sempre apareceram momentos difíceis, para o qual não estava preparado, que não gostaria de ter que enfrentar, mas tinha ciência de que fazia parte do show.

Como chefe de família, a vida me trouxe outras tantas tarefas, como por exemplo, levar os meus filhos na escola (e os amigos deles também!), todos os dias, de manhã bem cedo. Até hoje eles têm horror de ouvir a vinheta da Jovem Pan, porque eu deixava o rádio do carro ligado no noticiário!

Final de semana era o momento de muitas atividades esportivas na chácara, no clube, cuidar da administração da fazenda da família, dar muitas fugidinhas para a casa de praia (tempos maravilhosos e agitados!), viajar a trabalho, sanando os muitos problemas da Papirus, descobrir novos lugares de moto.

O conforto estava relacionado a momentos de lazer com a família sem descuidar de maneira nenhuma da empresa, primeiro porque era filho do dono (uma mega responsabilidade!) e segundo porque exercia a função de presidente da companhia, o que requeria dedicação em último grau.

A única época em que eu posso dizer que tive um pezinho na zona de conforto foi há 20 anos, quando contratei um CEO para a empresa, mas mesmo assim, eu e Cidinha arregaçamos as mangas, compramos a fazenda Alvorada e nos tornamos referência na criação de gado Guzerá.

Eu acredito que para ter algum tipo de sucesso na vida precisamos sempre nos refinar e melhorar. Temos, dentro de nós, a capacidade e o desejo poderoso de melhorar nossa performance. E só podemos fazer isso nos esforçando e testando.

Experimentando. Tentando algo novo. Dando mais um passo. Deixando-se tentar por algo novo. Sim, fazendo isso cometeremos erros, mas a partir desses erros conheceremos quais são os nossos valores.

Algumas coisas não apreciaremos. Isso é bom, pois saberemos um pouco mais sobre quem somos e o que não gostamos.

Outras estarão de acordo com os nossos valores, com quem somos e contribuirão com a descoberta de coisas importantes e enriquecedoras para nossa vida.

Então eu penso que quem se deixa levar pela zona de conforto, transforma o viver em uma coisa bem menos interessante do que é. Acaba por conquistar uma vida monótona, previsível.

Quem leva uma vida segura e previsível nunca saberá que pessoa extraordinária realmente é. Precisa passar por aqueles momentos desafiadores para que a grandeza pessoal possa ganhar destaque.

Quero deixar claro que não há nada errado com as pessoas se sentirem felizes na sua zona de conforto. Isso é uma opção. (Por até três dias, tudo bem!)

Agora, quem quer se desenvolver pessoal e profissionalmente, aprender e fazer coisas novas é essencial. Assumir riscos e ousar é inevitável para o crescimento do seu negócio. Não estou aqui sugerindo que se assumam riscos irresponsáveis, mas aproveitar as oportunidades e arriscar de maneira calculada é fundamental para construir um negócio bem-sucedido.

Para concluir, a minha sugestão para as pessoas que querem ter sucesso na vida é correr da zona de conforto. O homem não pode parar. Não pode ficar balançando numa rede pra lá e pra cá ad aeternum. (Acho que tenho umas dez redes na minha casa de campo e só as coloco quando temos visitas!)

Quando a gente relaxa muito e a água chega no pescoço, fatalmente tomaremos alguma decisão errada, afobada, momentânea e normalmente esse tipo de decisão não alcança o alvo desejado. Tem sim que analisar o antes, o agora e o depois e aí então arriscar. Arriscar com estudo preliminar, com cautela, falando a verdade, mas sem ficar estacionado na zona de conforto. Isso vale para investimentos, relacionamentos, sonhos etc.

A verdade é um excelente antídoto para quem quer fugir de ficar procrastinando, sem sair do lugar. Falar a verdade para os outros e para si mesmo ameniza toda e qualquer negociação, aprofunda relacionamentos, evita mal-entendidos, abre novas possibilidades e dá um chega pra lá no comodismo, um dos principais aliados da zona de conforto.

Não tenha medo de experimentar coisas novas em nenhum aspecto da sua vida. Você vai descobrir que tem muito mais capacidade e coragem do que pensava. E, ao enfrentar cada desafio, sem medo ou vergonha de falar a verdade, você terá pela frente uma vida muito mais excitante e gratificante. Ponha isso em prática! Você não tem nada a perder – e tudo a ganhar.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *