Nós somos o que repetimos

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Outro dia, alguém me perguntou por que eu nunca falo mal de outras pessoas. A resposta é simples: tenho medo de me tornar aquilo que repito.

Aristóteles disse algo que vale analisarmos como algo muito útil para a nossa saúde mental: “Nós somos o que repetimos. Excelência é um hábito.”

Se isso vale para as coisas boas – e vale -, também vale para as ruins. Cada palavra que sai da nossa boca, cada ação que repetimos, cada pensamento que cultivamos está nos moldando, dia após dia, em quem nos tornamos.

Sou extremamente cuidadoso com aquilo que falo, seja com familiares, amigos ou parceiros de trabalho. Evito falar mal de outras pessoas ou disseminar notícias negativas, mesmo quando acho que alguém “merece”.

Prefiro falar sobre coisas boas, elogiosas. Se me perguntam sobre alguém, procuro dar opiniões positivas ou simplesmente não emito juízo de valor. Falar coisas que não são corretas sobre os outros me faz sentir mal, então, por que eu escolheria repetir algo que me faz mal? Não gosto de me deter em conversas desagradáveis, notícias de morte ou acidentes. Acredito que existe uma contaminação por energias ruins quando ficamos remoendo essas coisas. Como somos o que repetimos, escolho não alimentar o que não quero cultivar.

É um sistema de viver da qual gosto muito: ser autêntico, não depreciar ninguém, não dar informações mentirosas. Construir o hábito de falar apenas o que considero correto e verdadeiro.

O lado complicado da mente

Nossa mente tem uma tendência natural: ela vai para o lado complicado, para o negativo. Por isso, é necessário criar o hábito de pensar positivamente, de dizer “sim” às oportunidades.

Se algo não der certo? A lição é aprender e tentar de uma maneira diferente, sem desistir. Uma vez que funciona, torna-se um hábito. Para ser excelente em qualquer coisa, você precisa ter o hábito de ser persistente em tudo. E isso exige coragem para mudar hábitos que não estão funcionando, em vez de simplesmente desistir.

Deixem-me contar uma história simples, mas que ilustra perfeitamente isso: demorei anos para fazer um bom churrasco. Observei um amigo que fazia churrascos excelentes, prestei atenção em cada detalhe: o corte da carne, o ponto do sal, a distância do fogo, o tempo de cada lado. Imitei, pratiquei, errei, ajustei.

Repeti até que se tornou um hábito, comecei a fazer churrascos que as pessoas elogiavam e passei a ensinar a técnica, inclusive aos meus filhos. A maestria veio da insistência, do aprofundamento, da repetição consciente.

Tudo que é bem realizado exige muito trabalho. A insistência em retocar e aprimorar é fundamental para o sucesso de grandes projetos, mesmo que o projeto seja apenas um bom churrasco de domingo.

Quatro fazendas antes do sucesso

Mas se tem uma história que realmente ilustra o poder dos hábitos e da persistência, é minha jornada com fazendas.

Tive uma fazenda em sociedade com meus irmãos, a primeira que meu pai nos deu, localizada em Santa Rita do Passa Quatro, a 250 km de distância. Depois viemos para a Fazenda Esperança, em Pompeia, 500 alqueires a 420 km – eu viajava de trem por 10 horas à noite para chegar lá.

Também tive duas fazendas relacionadas ao trabalho da empresa, para plantio de eucalipto.

Quatro experiências. Quatro aprendizados. Muito know-how acumulado, muita maturidade conquistada.

Era muito jovem nessas primeiras experiências, mas aprendi muita coisa sobre administração rural, sobre gado, sobre a terra, sobre pessoas. Aprendi principalmente sobre o que não fazer.

Então comprei minha própria fazenda, que batizamos de Fazenda Alvorada. Com a parceria fundamental da minha esposa Cidinha, que cuidava da parte financeira, dediquei-me ao projeto de criação de gado Guzerá, implementando meus próprios projetos e administração.

Mas não foi imediato. Levei três anos para começar a ganhar dinheiro. Três anos exigindo insistência e persistência diária. Busquei ajuda qualificada, mudei a equipe quando necessário. Estudei o sistema de cruzas de gado, a escolha dos touros, os melhores locais de compra dos animais. Me aprofundei no negócio. E é isso: tudo aquilo que você se dedica e você mergulha no negócio, você fica bom.

Hoje, as pessoas se referem à atividade de criação de gado Guzerá no Brasil com duas siglas: a.D.R. e d.D.R. – “antes de Dante Ramenzoni e depois de Dante Ramenzoni”. E isso não tem nada a ver com arrogância. É o resultado de repetir os hábitos certos por tempo suficiente até alcançar a excelência. É o fruto de quatro tentativas anteriores, de erros transformados em aprendizado, de persistência quando seria mais fácil desistir.

A coragem de mudar

Grandes projetos e realizações exigem muito trabalho e constante aprimoramento. Precisa ter a coragem de mudar hábitos que não estão funcionando.

A falta de vontade e coragem leva a uma vida sem propósito. Se você não tem coragem para mudar o que não funciona, vai apenas repetir os mesmos erros e esperar resultados diferentes, o que, como sabemos, é a definição de insanidade.

Decidi parar com a fazenda aos 70 anos. O projeto estava concluído, a excelência havia sido alcançada. Era hora de novos desafios, novos hábitos a cultivar.

Voltando ao pensamento de Aristóteles, não tenho dúvidas de que somos o que repetimos. Excelência não é um ato isolado, é um hábito, que permeia tudo na minha vida: o cuidado com as palavras que escolho repetir, evitando falar mal dos outros e cultivando apenas o que me faz bem; a persistência que me levou de churrascos medíocres a churrascos que agradavam em cheio; as quatro fazendas que me prepararam para criar o projeto de agronegócio mais bem-sucedido da minha vida.

Cada experiência anterior, mesmo as que não deram certo, foi um tijolo na construção da minha excelência. Cada repetição consciente, cada ajuste, cada vez que tive coragem de mudar o que não funcionava, tudo isso me moldou e aprimorou.

Porque no final, não somos definidos por um único ato de brilhantismo ou por um único erro. Somos definidos pelos pequenos hábitos que repetimos todos os dias. Pelas palavras que escolhemos dizer. Pelos pensamentos que decidimos cultivar. Pela persistência que mantemos quando seria mais fácil desistir.

A excelência não é um destino. É uma experiência diária de repetir as coisas certas até que elas se tornem quem você é.

E você, o que está repetindo hoje?

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