O reino de todas as possibilidades na palma da mão

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Quem poderia imaginar há cerca de 20 anos que os aparelhos celulares atingiriam o nível de tecnologia e inteligência que possuem hoje?

Pensar que o meu irmão Virgilio, em 1995, me dizia “imagina, eu nunca vou comprar um telefone celular, não vejo a menor utilidade nisso, tem tantos orelhões espalhados pela cidade…”, no que eu respondi: “olha que você vai pagar tua língua, vai precisar de um celular, sim!”

E de fato, nossa mãe faleceu tempos depois e ele não demorou muito tempo para perceber que não seria ninguém sem um celular.

Muita gente apregoava que não queria este tipo de invasão de privacidade e hoje a maioria das pessoas não se desgruda do celular nem para ir ao banheiro.

No início da minha vida corporativa, eu encomendava ligações telefônicas à telefonista com antecedência de 24 horas para falar com a fábrica (tinha fila com hora marcada!). Hoje decido o futuro dos investimentos da fábrica através de reuniões online, sem nem precisar abrir mão do conforto da minha casa.

Meu pai se orgulhava de enumerar a evolução das coisas no decorrer dos anos e quando já estava octogenário, sua fala era mais ou menos assim: “eu sou muito feliz porque eu vi o bonde com tração animal se transformar em elétrico; o avião à gasolina e depois a jato; o cinema mudo, preto e branco e em cores; o rádio, a televisão… eu vi tanta coisa que eu não posso me queixar!” E ele nem quis ter um carro automático, porque dizia que não se importava de trocar as marchas do carro manual! (E ainda bem que não quis, porque o carro dele era batizado de “bola preta” de tantas batidas!)

Imaginem só a minha lista de invencionices comparada com a do meu pai e como será a dos meus netos!

Em tempo: o meu pai era tão desapegado dos seus carros, que um dia, ao ser parado por um guarda após fazer “pequenas barbaridades”, quando o guarda lhe solicitou o documento do veículo, ele estendeu a mão com a carteira de dinheiro dele.

_ Desculpe, Seu Ziro, mas o que eu preciso é apenas o documento do carro!

Ele procurou no lugar aonde sempre guardava e como alguém havia tirado, possivelmente quando o carro estava na manutenção, respondeu: “o senhor pode ficar com o carro, que depois eu mando buscar!”

Na atualidade, fico só pensando o quanto meu pai iria ficar pasmo com essa história de rolar o dedo na tela de um celular e acessar tudo o que quisesse pesquisar, ler e comprar, com apenas alguns breves movimentos.

Para encerrar, mais duas peraltices do seu Ziro, que hoje são bem engraçadas, mas no tempo em que foram praticadas, causaram muita preocupação:

1. Quando o meu pai fazia um bate-volta para a chácara em Santo Amaro, ele acordava bem cedo, por volta das 5 horas da manhã, pegava o seu Fiat 147 e colocava o pé na estrada.

À tarde, quando retornava, em vez de vir pela Marginal, ele pegava a Avenida Santo Amaro para poder passar no nosso escritório e me fazer uma visita. Assim que chegava, me contava todo orgulhoso: “você sabe em quantos minutos eu fui para Santo Amaro, hoje cedo? 25 minutos!”

_ Mas, papai, não dá para fazer esse percurso nesse tempo, a não ser que tenha esticado 150km/h.

_ Imagina! Eu “queimei todos os semáforos!”

Eu ficava com os cabelos em pé e respondia: “desse jeito eu vou ter que confiscar o seu carro!”

_ Mas não tem perigo, Dante, porque quando eu passo eu olho para os dois lados ao mesmo tempo!

(Parecia um adolescente contando suas primeiras aventuras com o volante.)

2. Como ele não gostava de ser guiado pelo nosso motorista, ele usava bastante o carro dele e eu observava que sempre existiam muitos reparos a serem feitos.

Um dia, eu não me contive e perguntei: “como você conseguiu amassar tanto esse para-choque se ele é de ferro?”

_ Outro dia, como não encontrei lugar para estacionar o carro, então eu empurrei o carro de trás e também o da frente e criei a minha vaga!

_ Mas papai, se os donos dos carros te pegam fazendo isso, eles vão querer tirar satisfação com você…

_ Se isso acontecer, eu vou falar a verdade: não deixaram lugar para eu estacionar o meu carro, esse foi o único jeito que encontrei para criar uma vaga.

(Simples assim!)

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