Tempo de leitura: 6 minutos

“Nosso cérebro é o melhor brinquedo já criado: nele se encontram todos os segredos, inclusive o da felicidade.” (Charles Chaplin)
Chaplin, como sempre, sabia do que estava falando. Ele teve uma vida difícil, mas usou seu cérebro para criar arte que trouxe alegria ao mundo inteiro. E descobriu, como eu também descobri ao longo da vida, que a felicidade não está fora de nós. Está dentro, na forma como usamos esse brinquedo extraordinário que carregamos entre as orelhas.
Meu pai sempre dizia que precisávamos exercitar a “massa cinzenta”. Desde criança, ele nos incentivava a praticar todos os esportes e jogos que estimulassem o cérebro. A única regra? Priorizar atividades sem lesões graves, para manter a continuidade. Afinal, de que adianta estimular o cérebro se você fica meses parado se recuperando de um acidente? Então, desde menino, aprendi que o cérebro precisa ser constantemente utilizado. Pensar, ler para entender e aprender, até mesmo sonhar durante o sono. Tudo isso é exercício mental.
Mas o que significa realmente “brincar com o cérebro“? Para mim, é exercitar o pensamento. Imaginar possibilidades. Analisar ideias, desde a resolução de problemas cotidianos até a concepção de coisas “quase impossíveis” – como transformar uma máquina de 150 toneladas em uma de 300. É processar informações de livros que leio, de conversas que tenho, de experiências que vivo. É usar a memória, conectar pontos, criar soluções.
Até durante uma caminhada ou um passeio de bicicleta em locais conhecidos, onde a atenção não precisa estar totalmente no caminho, pratico uma forma de meditação. Deixo o cérebro processar, organizar pensamentos, encontrar respostas. Claro que quando dirijo em São Paulo, a atenção tem que ser total. Mas isso também é exercício – exercício de foco, de atenção plena. Tudo é estímulo.
A liberdade de ser livre
Agora vou contar algo que foi fundamental para minha felicidade. Ao longo da vida, fui sócio em diversos negócios. E na maioria das vezes, essas experiências foram desgastantes. Me sentia preso, sem liberdade para agir de acordo com o que julgava ser melhor para o crescimento da empresa em questão. Frequentemente entrava em conflito com os sócios, que propunham ações que iam contra minha forma de fazer negócios, portanto, as indisposições eram constantes e as discussões, desgastantes. E aquilo me tirava a paz.
Quando consegui encerrar o ciclo dessas parcerias, senti uma felicidade imensa. Pude tomar decisões alinhadas com meus valores, escolher novos caminhos, dormir em paz, que faz uma grande diferença na nossa saúde integral.
O segredo da felicidade…
E aqui chegamos ao verdadeiro segredo da felicidade, aquele que Chaplin dizia estar dentro do cérebro. Na minha forma de ver a vida, a felicidade reside em ser correto e honesto consigo mesmo e com os outros.
Viver sabendo que você fez algo contrário ao que você acredita causa preocupação e tira a paz. É um peso que você carrega no cérebro, ocupando espaço que poderia ser usado para coisas boas, para ideias criativas, para alegria.
Essa honestidade implica seguir as regras e leis do país, mesmo quando os impostos são altos. Fazer negócios de forma transparente. Evitar enganar o próximo, mesmo quando seria mais lucrativo fazê-lo. A felicidade, para mim, é um estado de bem-estar interior que surge quando você está em paz consigo mesmo. Quando sabe que não logrou ninguém. Quando pode olhar no espelho e gostar do que vê.
Há muitos anos, aprendi uma lição valiosa sobre paz interior com meu tio Ibsen.
Essa cena se passou em uma época que fizemos um grande empréstimo bancário para investimentos na nova fábrica e ele, para me mostrar o quanto estava desconfortável e preocupado com aquela situação, entrou na minha sala, me mostrou o seu relógio no pulso e disse: “Você está vendo esse relógio aqui? Não é mais meu, é do banco.”
Nunca esqueci a mensagem dessa imagem na minha mente e passei a pensar da mesma forma. Quando você faz um empréstimo e oferece algo como garantia, esse bem deixa de ser totalmente seu. Passa a pertencer ao banco até você quitar a dívida.
Não que empréstimos sejam ruins. Você pode fazê-los, desde que tenha algo para dar em garantia e a capacidade de pagá-los. Mas se não tiver essa capacidade, a preocupação vai tirar sua paz. Vai ocupar seu cérebro com ansiedade em vez de criatividade. E um cérebro ansioso não é um cérebro feliz.
O sucesso está em fazer bem o que você sabe
Outra coisa que aprendi: o sucesso e a felicidade não dependem de ter uma grande empresa. Dependem de fazer bem o que você sabe. De sustentar a si e à família com integridade. De ser autêntico naquilo que faz.
Chaplin não tinha uma corporação. Tinha seu talento, sua criatividade, seu cérebro. E isso foi suficiente para criar um legado que atravessa gerações.
Você não precisa ser o maior. Precisa ser verdadeiro. Precisa fazer com excelência aquilo que está ao seu alcance. E precisa fazer isso com honestidade.
Portanto, a minha síntese sobre felicidade é esta: ela requer ser autêntico, alegre e saber se divertir.
Ser otimista. Exercitar a mente com novas experiências. Escolher aquilo que verdadeiramente te diverte e se alinha aos seus valores.
Por exemplo, escolho os filmes que vou assistir baseado no que me interessa, não na opinião alheia. Escolho as atividades que me dão prazer genuíno, não as que “deveriam” me dar prazer. E aqui está o segredo: todas as coisas podem se tornar divertidas e trazer momentos felizes se estamos em paz com nós mesmos.
Aos 87 anos, continuo brincando com meu cérebro todos os dias. Leio. Penso. Imagino. Resolvo problemas. Escrevo conteúdo para o meu blog. Converso com pessoas interessantes. Aprendo coisas novas. E mantenho minha mente ativa porque sei que, no momento em que parar de usá-la, ela começa a enferrujar. E um cérebro enferrujado é um brinquedo quebrado.
No final, o segredo da felicidade que está dentro do nosso cérebro é surpreendentemente simples: viver de forma que você possa olhar no espelho todos os dias e gostar da pessoa que vê. Alguém honesto, íntegro, que não logra ninguém, que faz o certo mesmo quando é difícil, que tem a consciência limpa.
Quando você vive assim, todas as coisas podem se tornar divertidas. Tudo pode trazer momentos felizes. Porque a felicidade não depende do que você está fazendo, mas de quem você é quando está fazendo.
Um abraço e fica a dica: aprenda a se divertir brincando com o melhor brinquedo já criado.