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John F. Kennedy disse uma frase marcante: “o conformismo é o carcereiro da liberdade e inimigo do crescimento.”
Eu estudava em Nova York na época em que Kennedy era presidente e vi de perto aquele entusiasmo americano, aquele “yes we can” bem antes de um outro presidente recriar o “yes we can“. E quando ele falou sobre conformismo, ele estava falando para um país inteiro, mas a frase vale para cada um de nós, individualmente, todos os dias da nossa vida.
E hoje eu vou tratar esse tema com o carinho que ele merece, porque descobri algo importante: precisamos de uma vacina contra o conformismo. (Mais à frente eu explico como ela seria fabricada.)
O que é ser conformista
Conformismo é aceitar! Aceitar o problema sem tentar resolver, a zona de conforto como endereço definitivo, que “é assim mesmo”, “sempre foi assim”, “não vai mudar”.
O conformista não é preguiçoso necessariamente, inclusive pode até trabalhar muito, mas trabalha dentro do cercado. Não questiona, não experimenta, tampouco se arrisca. E aí o tempo passa e ele continua exatamente onde estava, se perguntando por que a vida dos outros mudou e a dele não.
E aqui vai uma observação que me diverte: o conformista se revela cedo. Sabe quando a escola pede aquele trabalho em grupo? Tem sempre um que diz: “O que vocês decidirem para mim está bom.” Nem lê ou opina, delega tudo e some.
E quem aprende a dizer “vocês decidem” aos 12 anos, provavelmente vai dizer a mesma coisa aos 40, só que agora para o chefe, para o sócio e para a vida.
Na vida profissional adulta, o quadro continua. Quantos funcionários com ideias valiosas ficam calados porque “de qualquer forma não vai mudar nada”, porque “quem manda aqui é outro”? O salário não sobe, mas também não sobe a coragem e a conformidade paga seus juros em estagnação.
(Preciso fazer uma pausa aqui, porque o leitor atento vai notar uma contradição.)
Sou admirador de Kennedy. Frases dele marcaram gerações, inclusive a minha. Mas tem uma coisa que sempre me incomodou: o homem andava em carro aberto, em desfile público, com multidão na rua.
Eu, que estudei naquele país naquela época, sempre achei falta de cautela. Aquilo tinha um quê de exibicionismo de “eu sou corajoso, não preciso de vidro” e penso que essa suposta coragem o levou à morte, interrompendo um trabalho que ainda tinha muito a dar.
Então vejam só a ironia: o homem que condenava o conformismo morreu por excesso de conformismo com a própria imagem de herói. Ele se conformou com o papel que construiu de si mesmo, não abriu mão do carro aberto porque “presidente que se preza desfila assim”.
Coragem de verdade, hoje eu sei, é saber quando não correr risco desnecessário, é ter a maturidade de andar de carro fechado quando o momento pede e continuar fazendo história por mais vinte anos.
Agora deixa eu contar como se combate o conformismo na prática, com um exemplo que já contei aqui no blog, mas que merece ser recontado sob outro ângulo.
Na Papirus, tínhamos uma máquina com desempenho abaixo do esperado, e o fabricante dizia: “essa máquina produz até 200 toneladas por dia. Ponto. Essa é a especificação.”
A maioria aceitaria. Afinal, era o que o manual dizia, o que o fornecedor garantia, o que todos os outros compradores daquela máquina tinham.
Eu não aceitei. Entrei num avião e fui para a Europa ver essa máquina funcionando em outra fábrica, pois queria entender o funcionamento, ver com meus olhos, conversar com quem operava.
Voltei com conhecimento, orientei minha equipe, ajustamos processos, investigamos cada gargalo e a máquina que “aceitava” 200 toneladas por dia passou a produzir 350.
Para quem gosta de número, aí vai outro: 350 toneladas por dia, a custo muito menor do que comprar um equipamento novo. A solução não estava em mais máquina, e sim em menos conformismo.
O manual diz 200. A vida pode dar 350. Mas… só para quem se recusa a aceitar o “é assim mesmo”.
E não pensem que conformismo ataca só empresas; ele também ataca o corpo e a mente quando a idade chega.
Tem gente que aos 70 já se entrega. “Ah, minha coluna é assim mesmo.” “Ah, doer a perna é da idade.” “Ah, não tenho mais idade para dirigir, para viajar, para aprender.”
Eu já estou quase chegando aos 90 e não me conformo com quase nada. Dores na coluna? Procurei tratamento, fiz cirurgia. Problema na perna? Cirurgia também. Porque dor que tem solução não é destino, é trabalho pendente.
Monto moto. Dirijo. Trabalho. Tenho hobbies. Me esforço para não “parecer que tem a minha idade”, como dizem. E não é vaidade, mas resistência ao conformismo físico. Porque o dia em que você aceita a primeira limitação sem lutar, a segunda chega mais fácil, e a terceira nem precisa convencer.
O amigo que eu não deixei para depois
Tem um conformismo silencioso que é o pior de todos: o conformismo nos relacionamentos. Aquele “depois a gente se vê”, “um dia marcamos”, “a vida tá muito corrida”.
Eu tomo a iniciativa de manter contato com as pessoas que quero por perto. Não espero que o outro chame, muito menos a agenda se alinhe por acaso.
E aqui vai uma lição que a vida me deu recentemente. Um amigo meu, eu insisti para encontrá-lo alguns meses atrás. Marquei, fui, conversamos, aproveitamos. Não deixei para depois.
Pouco tempo depois, ele faleceu.
Se eu tivesse me conformado com o “depois”, teria ficado com a saudade da visita que nunca aconteceu. Em vez disso, fiquei com a memória daquele encontro. A diferença entre as duas é exatamente a diferença entre conformismo e iniciativa.
Nutrir amizades não é luxo de quem tem tempo, mas um investimento em longevidade e bem-estar. E quem espera o mundo buscar não recebe visita nenhuma.
A vacina que ninguém fabricou
Agora, a promessa do começo. E se existisse uma vacina contra o conformismo? Uma dose que você toma de tanto em tanto, como a da gripe?
Simplesmente acho que seria a vacina mais útil já inventada. Pense no quanto a humanidade perderia menos, em quantas empresas não teriam fechado, quantos talentos não teriam apodrecido em silêncio, quantas vidas não teriam ficado pequenas por falta de uma dose de “não aceito”.
Pois é, a medicina não fabricou essa vacina, mas descobri que ela existe e não vem de laboratório. É fabricada dentro de cada um de nós e eu recomendo que todos copiem a fórmula.
Primeira dose: autoconfiança. O “eu posso fazer!”. Sem isso, nada funciona. O conformista não é quem não consegue, é quem não acredita que consegue. A crença é o adjuvante da vacina.
Segunda dose: constância. Ação hoje, ação amanhã, ação depois de amanhã. Autoconfiança sem rotina é entusiasmo de domingo e é a constância que transforma intenção em resultado.
Terceira dose: diligência. Buscar ativamente soluções. Investigar, perguntar, viajar se precisar, ver a máquina funcionando na Europa se for necessário. Não aceitar diagnóstico pronto nem limitação anunciada sem pelo menos uma segunda opinião.
Quarta dose: responsabilidade. Cumprir o que assume. Assumir o que é seu. O conformista delega a própria vida para os outros decidirem. Quem toma a vacina assina embaixo.
Reforço anual: rede de apoio e presente. Cultive pessoas que te puxam para cima, não as que te conformam para baixo. E viva o agora, porque “depois” é o endereço preferido do conformista.
Essa vacina não tem efeitos colaterais. O único risco conhecido é virar dependente. E nesse caso, o dependente vira protagonista da própria história.
Que acha da ideia de começar a tomar a sua dose hoje?