Boas Maneiras

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Eu não curtia muito o jeito de ser da minha avó paterna, nonna Ernestina, mas uma coisa eu preciso reconhecer: ela era muito inteligente e como dizem hoje em dia, uma pesquisadora de novas tendências.

Meu avô Lamberto veio de uma casta muito pobre lá da Itália, portanto não teve educação refinada. Mas a minha avó… já havia vivido a experiência de passar por uma escola de boas maneiras, bem como tentar melhorar o jeito meio rude de seus irmãos, obrigando-os a passar pela mesma escola. Lá na Itália isso era muito comum.

Quando eles vieram para o Brasil, meu avô e meu tio-avô aproveitaram a habilidade de artesãos chapeleiros, montaram uma pequena fábrica que logo prosperou e se tornou referência no mercado. 

Assim que aumentaram o padrão de vida, minha avó começou a perceber que todos (principalmente o meu avô!), precisariam aprender boas maneiras como forma de adquirir os conhecimentos que só as famílias mais abastadas recebiam de berço, principalmente porque estavam à frente de um negócio do ramo da moda, que simbolizava requinte, elegância, bom gosto.

Qual era a ideia da minha avó?

Que ela mesma transmitisse os ensinamentos recebidos na Itália, dessa forma, os homens aprenderiam regras de etiqueta e boas maneiras para poderem se apresentar melhor socialmente, entendendo por exemplo como se portar à mesa, em ambientes mais refinados do que os que estavam acostumados a frequentar; aprimorar o bom gosto nas escolhas sobre o que vestir, qual estilo de moda seguir, como combinar as cores das roupas etc. (E também para estar à altura dos chapéus que fabricavam!)

Acho até que ela conseguiu em alguns pontos, embora eu considerasse sua didática muito ruim, se comparada com a delicadeza que minha mãe tinha ao ensinar as mesmas coisas, em tempos mais modernos.

(E minha avó, cá entre nós, queria todo mundo muito educado, era muito polida fora do âmbito familiar, porque entre nós, ela era muito autoritária e criava caso por tudo! Por isso que eu nunca me afinei com ela…)

Imaginem vocês que nos meus tempos de semi-internato no Colégio Dante Alighieri, nós almoçávamos na escola (25 meninos, em uma única mesa!) e tínhamos uma professora de Italiano e Latim, chamava-se Miglioretti.

Ela se sentava na cabeceira da mesa para avaliar como nos portávamos, observava cada nosso movimento e eventualmente corrigia o que estivesse fora do padrão considerado de boas maneiras. (Quando a bagunça era muito grande, ela chamava uma ajudante!)

Imaginem também que, por volta dos meus doze anos, minha mãe resolveu me matricular na escola da Madame Poças Leitão, uma escola de dança e boas maneiras para jovens, que fazia o maior sucesso naquela época aqui em São Paulo. As aulas eram ministradas na sede da escola e também na residência das pessoas que quisessem maior privacidade.

No meu caso, eu curtia participar das aulas na casa do meu amigo Victinho Meirelles, na rua Avaré, no Pacaembu. A diversão era certa e uma das coisas que aprendi por lá e nunca mais esqueci é que não bastava apenas saber dançar, mas principalmente ser cortês, educado e gentil com o meu par. (Essa escola ainda está na ativa e creio que sob a administração da terceira geração da família!)

E eu adorava por que as nossas paqueras também frequentavam essa escola e a paquera ficava mais animada. Lá, aprendíamos algumas regras muito engraçadas, como a que ensinava que as moças não podiam “dar tábua” nas duas primeiras vezes que fossem tiradas para dançar. Isso só poderia acontecer quando tivesse maior entrosamento com o rapaz.

Preciso confessar que comigo, todo esse aprendizado funcionou muito bem! Aprendi com a minha mãe, com a Madame e coloquei tudo em prática quando fui estudar nos Estados Unidos e precisei usar todos esses ensinamentos e eles, de fato, foram bem úteis. (Principalmente para fazer sucesso com as moças americanas!)

No auge da minha adolescência, eu trocava muitas ideias com o meu pai sobre a trajetória de outras famílias com histórias muito parecidas com a nossa e como elas se esforçavam para aprimorar o conhecimento e refinar os hábitos. Falávamos dos Crespi, dos Matarazzo, dos Bonfiglioli e o meu aprendizado de boas maneiras só fazia crescer.

(Os laços de amizade entre os Bonfiglioli e os Ramenzoni se firmaram nos primeiros anos da Ramenzoni Chapéus, quando meu avô Lamberto convidou Alberto Bonfiglioli para se tornar despachante da minha família. 

Mais à frente, estabeleceram-se novas relações de negócios e formaram uma parceria na qual Bonfiglioli ficou responsável por importar a matéria-prima pele de coelho para a fabricação dos chapéus e depois também passou a cuidar da exportação dos produtos Ramenzoni.)

Meu pai gostava sempre de frisar que as pessoas bem-nascidas e bem-sucedidas não saíam de sua terra natal, mas sim os que precisavam tentar a sorte em países mais jovens do que os do velho continente.

E seu Ziro também gostava de receber seus muitos amigos na chácara de Santo Amaro. Alguns deles eram nascidos em famílias tradicionais e, nas rodas de conversa, um dos temas mais recorrentes era o comportamento um tanto controverso dos novos ricos, que se orgulhavam das grandes riquezas conquistadas, mas seguiam com pequenos aprendizados de boas maneiras.

Hoje talvez esteja acontecendo algo que muito se assemelha a esse pioneirismo de estrangeiros que vieram tentar a sorte aqui no Brasil, a exemplo dos meus familiares que sabiam fazer chapéu e enriqueceram fazendo a arte que dominavam.

Com o fenômeno do empreendedorismo digital, que vem se desenvolvendo a passos largos, jovens de todas as classes sociais e níveis de educação, ancorados pelo avanço tecnológico desses novos tempos, conquistam grandes fortunas em tempo recorde e eu espero que sigam prestando atenção também no aprendizado de boas maneiras, porque esse é um fator determinante para manter as conquistas ao longo da vida.

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